Percorro mil e um caminhos para tentar arranjar justificação para muitos comportamentos que assisto diariamente e volto sempre ao ponto de partida e à única justificação que considero plausível. A educação que nos foi dada pelos nossos pais é ela que nos deixa os valores, princípios e caminho que seguiremos a vida toda.
Nunca nos faltou nada, mas nunca ninguém esbanjou, nunca ninguém mostrou mais do que era e tinha, sempre cresci a ver muita humildade, trabalho e valorização do que se conquistava e ganhava e foi assim que cresci.
Minha mãe criou 3 rapazes, muitas vezes só, tratou-nos como ninguém, ainda hoje vive para o nosso bem estar diário. Meu pai trabalhou uma vida inteira, tubista, construiu silos pelo mundo fora, trabalhava seguidos 24h,48h,72h, passava meses e meses sem nos ver, anos atrás de anos, enquanto não terminasse as suas obrigações não descansava, enquanto não terminasse o último projeto não parava, nunca virou as costas a uma obra e quantas e quantas davam problemas.
Vida dura, trabalhei um mês com ele e serviu para lhe dar mais valor ainda e para saber que aquilo não podia ser para mim. Perdeu muitos momentos importantes dos filhos, mas os filhos sempre perceberam o porquê.
Aprendemos vendo com o exemplo que nos deram, não me lembro de dias sem trabalhar em casa, muitos anos sem férias de família, muita humildade e honra. Nas obras aprende-se muito, aprendesse a lidar com aqueles que lutam todos os dias para levar alguma coisa para casa, que dão tudo, ali quem é que vira as costas? Não podem, senão não comem. Ali quando corre mal resolve-se rápido.
Mas há palavra, há honra, cumpre-se e assume-se.
Crescemos junto de quem mais necessitava, aprendemos a partilhar, a respeitar e a lutar, fosse quem fosse, vimos o que queríamos e o que não queríamos na rua, soubemos ser orientados e escolher o nosso caminho. Minha avó ainda hoje, mesmo vendo muito pouco sai à rua, vai às compras e todos os dias deixa mais do que um saco à porta das vizinhas que precisam.
E foi e é com os exemplos que a minha vida toda fui criado que hoje me deixam revoltado, que hoje não me deixam desistir e que hoje me obrigam a intervir. Vejo hoje a uma velocidade alucinante o declínio da humanidade, à uns anos dizia que era um vazio de valores, mas estamos já muito mais à frente. Não vamos conseguir viver em sociedade mais do que 100 anos e estou a ser otimista, poderei noutra ocasião justificar, mas hoje digo que sem educação não vamos continuar. Até 2008, aquilo que mais me fez pensar se queria ser pai era isto, esta desvalorização dos princípios fundamentais de vida, ninguém quer saber de ninguém, de nada, vale tudo, tudo é permitido, não há regras, não há autoridade, não há objetivos e onde a forma de vida se denomina de lassidão.
E é um problema ainda maior quando tu vives todos os minutos esta situação, quando dás aulas, quando dás treinos, quando pensas que podes ajudar a formar melhores pessoas e melhores atletas e quando os atropelos se sobrepõem a tudo isto. Tudo é normal, tudo é explicável e tudo é grave quando tentas fazer aquilo que te compete, quer dizer, que antes tu achavas que competia, porque as dúvidas são mais que muitas neste momento.
Todos os dias vemos e somos intervenientes ativos nesta pouca vergonha, acendemos a televisão e comemos a porcaria que somos, os coniventes com uma saúde, educação, justiça que nos deixam perder o pouco que ainda nos segurava, a dignidade.
Tudo o que era negócio, bastava a palavra para se concretizar, hoje basta a palavra para se mandar abaixo o que os outros constroem e lutam.
Vou bater-me sempre pelo respeito, mas não sei se vou conseguir, olho para o lado e a fila de desistentes é enorme, empurram-me para entrar nessa fila, não sei se vou ficar na minha fila.
De uma coisa eu sei, aos 40 anos, sobra-me o orgulho, pelos valores que me transmitiram, e pela luta que tenho para os transmitir, ajudar só a quem pedir, porque isto reverte-se facilmente e tu ajudas e ainda tens tu o dever de agradecer, porque o menino e a menina têm sempre razão.
Termino com o meu pensamento do dia, gozem a vida, porque senão alguém goza com a tua.
Obrigado aos meus pais por me educarem, no meu entender bem, mas acho que até eles já não sabem se bem ou mal, com o que assistem todos os dias.