sexta-feira, 8 de maio de 2009

Hugo e a subida de divisão


"Passaram 4 dias após vencer o campeonato e consequente subida à 1ª divisão e ainda não caí em mim, tem sido tudo muito rápido e muito intenso, ainda não me habituei a toda esta loucura que as Caldas vive, ainda não me habituei ao facto de onde vou todos me dão os parabéns como se me conhecessem há muito tempo, ainda não me habituei aos bastantes compromissos que têm feito para homenagear a nossa equipa, ainda não me habituei à grande responsabilidade que passámos a ter nesta cidade. Independentemente de tudo isto estou bastante feliz e contente, visto que concretizei um sonho que tinha. Não foi fácil chegar até aqui, visto que passei por algumas coisas que por vezes me levou a pensar desistir deste sonho: o facto de ter começado a jogar voleibol tarde; o ano que estive no Vale Figueira, não podendo jogar por não ter idade para jogar nos seniores; quando me dirigi a um clube em Lisboa e que me convidaram a sair após o 1º treino já que os jogadores não gostavam de pessoas da margem sul, o fim do clube onde “nasci” para o voleibol e que está no meu coração (CIRL), o que passámos em Sesimbra, os primeiros dias nas Caldas sozinho em que chorei muito e pensei voltar para casa e a não subida no ano passado pelo meu actual clube Sporting das Caldas. Hoje uma coisa tenho a certeza todas estas coisas só me deram força para atingir o que consegui no domingo, 3 de Maio de 2009.
Como é óbvio só consegui chegar à A1 porque tive um apoio incrível de algumas pessoas que já agradeci e que lhes devo muito, mas sobretudo da pessoa que me incentivou a jogar voleibol, que me formou, que teve um papel importante na minha ida para o Sporting das Caldas, que me apoia todos os dias e aquele que me fez acreditar que um dia podia chegar ao mais alto nível, muitas vezes acreditou mais ele do que eu – o meu irmão Nuno Maria.
Quero agradecer a todos aqueles colegas com quem joguei (Cirl principalmente) e que também tiveram um contributo muito importante, porque foi com eles que me iniciei no voleibol e conseguimos alcançar coisas muito importantes para o clube e para a cidade de Almada, apesar de não sermos recompensados devidamente.
Agradecer também à equipa de juniores do cirl, que treinei em conjunto com o Nuno quando eram iniciados e que aprendi bastante nesse ano. Tenho pena que não aproveitem melhor tudo o que têm porque estão a passar ao lado de uma oportunidade única.
Um agradecimento muito especial ao professor Júlio Reis que além de meu treinador é um grande amigo. O Júlio desde do primeiro dia que cheguei às Caldas apoiou-me e ajudou-me bastante a adaptar a esta cidade, para além de tudo isso devo-lhe bastante a nível profissional e não posso esquecer que apostou em mim no ano 2006/07 após estar parado um ano e sem nunca ter jogado na A2. Ele é o grande responsável pela subida da equipa e pelo desenvolvimento do voleibol na zona centro, merece bastante chegar à A1 por tudo o que tem feito pelo voleibol, pelo clube e pelos jogadores.
Como diz o velho ditado “o melhor fica para o fim”, daí deixar as pessoas mais importantes na minha vida e que contribuíram em muito para este momento que estou a viver:
Aos meus pais que me apoiam constantemente e sempre que preciso estão do meu lado. Foi difícil há três anos, quando sai de casa pela primeira vez para vir para Caldas. Apercebi-me que a vida não é tão fácil ao estar afastado da família e ainda hoje me custa estar longe deles, apesar de, sempre que posso ir a casa e todos os dias mantemos contacto por telefone ou internet, o que atenua as saudades. Foram eles que permitiram que eu tirasse a licenciatura em Educação Física e que conseguisse conciliar a minha vida profissional com o voleibol. São eles também que me aturam quando chego a casa e vou com trombas por ter perdido lol (apesar de este ano ter acontecido apenas 1 vez). Por tudo isto e muito mais faz com que eu seja um grande admirador deles e agradeço-lhes tudo o que têm feito por mim. Gosto muito de vocês.
Ao meu irmão Telmo que sempre acompanhou a minha carreira no voleibol e quando não está na bancada a sofrer está em casa ansioso à espera que eu ligue para comunicar o resultado, sinto que ele também vai para A1 comigo porque acompanha-me sempre e também realizou um sonho já que quis sempre que eu chegasse ao topo. Não me esqueço no dia em que me estreei no Sporting das Caldas em que saiu de casa cedo, apanhou o comboio na gare do Oriente e veio ver o meu 1.º jogo na A2. Tenho pena que ele não tenha começado a jogar voleibol mais cedo, acho que tem potencial para ser um bom libero. Para o ano na A1 bi.. o teu esófago tem que aguentar loool.
Ao principal responsável por tudo isto, o meu irmão Nuno, quero-lhe dedicar esta vitória. Já lhe disse que esta vitória é mais mérito dele do que meu e ele sabe disso. Comecei a interessar-me por Voleibol quando ía ver os seus jogos no desporto escolar e quando ele jogava na Siderurgia Nacional na agora A2. Foi por causa dele que comecei a jogar e foi ele que me formou como jogador. É para mim um dos melhores treinadores portugueses, basta olhar para o seu currículo (treinador adjunto de Juan Diaz na Selecção Nacional de Cadetes, treinador adjunto da Lusófona quando esteve na 1ª divisão, subiu o Laranjeiro para a 2ª divisão, ficou em 3º lugar no campeonato nacional com os juvenis do Cirl…) faltava-lhe uma coisa e que me orgulho de ter conseguido “ fui o primeiro jogador que ele formou desde início e que conseguiu chegar à 1ª Divisão”. Como já lhe disse penso que esta conquista é mais mérito dele do que meu, ele luta bastante todos os dias para chegar ao topo e ele sim merecia mais do que eu, só tenho pena que no meio onde está inserido não lhe dêem a devida importância, mas infelizmente em Almada aposta-se em tudo menos na modalidade que dá mais resultados, enfim… Senti também que foi uma vitória tua no anterior domingo, olhava para ti na bancada e via que estavas a viver o jogo como se ali dentro tivesses e mais uma vez a tua presença e apoio empurrou-me para o titulo. Não foi só como atleta que te devo muito, mas também como pessoa que hoje sou. Obrigado pelo que fizeste por mim.
Agradecer também à Carla (a minha namorada) por todo o apoio que me deu, acho que até ela ficou fã de voleibol lol nunca a tinha visto tão entusiasmada e a vibrar tanto na final. Sei que não é fácil estar todos os dias muito tempo sozinha enquanto treino, à espera que eu venha para jantarmos e estarmos juntos um bocado, eu provavelmente não conseguiria. Sempre que o treino ou jogo não corre bem, ali está ela a dar uma palavra de apoio e motivação. Não me esqueço que foi a pessoa que, após ter perdido a final de 2007/08 saiu da bancada veio dentro do campo para me abraçar e dar todo o apoio que precisava naquela altura, foi frustrante ter perdido mas ela conseguiu fazer com que eu saísse do pavilhão de cabeça erguida. És linda e adoro-te.
Beijo muito grande para a futura jogadora da família que é linda – a minha sobrinha Érica.
E agora? Esta é a pergunta que me faço nas últimas horas, agora que conquistei o campeonato e o sonho, está na altura de traçar novos objectivos para o futuro…" - Hugo Maria

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Parabéns mano pela subida à A1

Este é um momento muito especial para o meu irmão Hugo, conseguiu subir ao escalão máximo do voleibol nacional. Com muita dedicação e empenho alcançou um sonho, hoje é um dia muito especial para ele e para mim, pois o Hugo permitiu-me viver momentos únicos, tanto desportivos como relacionais, o amor que sinto por ele é enorme e o apoio que a família lhe deu hoje e até hoje é inexplicável. Senti a sua euforia, senti a sua alegria, senti que a vida tem momentos lindos e que o desporto nos tem permitido demonstrá-lo. Sempre acreditei que era possível e o Hugo também, mas a qualidade que tu tens Hugo sempre foi visível, mas se não tivesses feito pela vida, nada disto era possível. Mas quem trabalha como tu trabalhas, quem se dedica assim e quem tem esse valor só pode esperar vitórias. Estou muito feliz por ti, muito orgulhoso, muito babado, TU ÉS UM VERDADEIRO CAMPEÃO. Quero agradecer a todos aqueles que me enviaram mensagens, mas quero vos dizer que o HUGO é que tornou o meu sonho possível e que o meu contributo foi mínimo, porque ensino muitos mas poucos lá chegam. Alguém me mandou uma mensagem especial, que dizia que "Hoje é um dia feliz para todos aqueles que tiveram com o Hugo nesta caminhada no voleibol", é especial porque o Hugo sempre soube de onde veio e para onde queria ir, nunca esqueceu os ex-colegas e sempre foi humilde. Para terminar quero pessoalmente agradecer ao SC Caldas, aos dirigentes, colegas e em especial ao treinador Júlio Reis, que desde o primeiro momento acreditou no Hugo, para o SC Caldas também é um merecido prémio. Obrigado a todos.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Separar o Trigo do Joio

E eis que chegámos a mais uma fase difícil da formação de jovens atletas. É a altura dos jovens começarem a fazer as suas escolhas e de começarem a planificar a sua vida pessoal. Esta é a altura para se separar aqueles que realmente gostam e querem, daqueles que andaram a passar o tempo. É um pouco doloroso para mim que dou muito de mim em prol de todos e que vejo alguns a partirem, mas sei que é mesmo assim. Aqueles que vão sair raramente têm capacidade de ver que já não conseguiam lá estar e que normalmente arranjam um pretexto para sair. Esta tem sido uma constatação que tenho feito, mas para mim tem sempre um sabor a amargo, depois de tudo o que se faz por eles, o mais digno e o que considero mais razoável era agradecerem o que fiz por eles e seguirem suas vidas de consciência tranquila, assim arranjando pretextos mal fundamentados é menos ético e levam um peso consigo. Todos temos de ter a humildade para reconhecer que em muitos momentos da vida, todos falhamos, mas mais difícil ainda é saber perdoar os erros. Esta é uma filosofia de vida para mim, não é só da boca para fora. Isto para dizer, que por muitos erros que eu tenha cometido, estes foram sempre com o objectivo de ajudar cada um, e de ajudar um todo, a equipa e que quando não concordam com a pessoa que lidera têm de saber aceitar. Agora o mais grave de tudo é quando se pensa que o outro erra e estamos errados, pois é mais fácil criticar o próximo do que aceitar que se erra, aí sim é difícil de se alcançar e poucos conseguem fazer uma introspecção e verificar que afinal o erro era seu. Quando se tem uma função numa equipa é preciso saber bem a sua importância e quando se desviamos dessa função é preciso pedir ajuda para voltarmos ao caminho certo. As relações inter-pessoais nunca são fáceis, as equipas por vezes são como famílias, têm períodos menos bons, com discussões, com problemas e se sempre que aparecesse um problema, houvesse um divórcio, estávamos mal, mas se calhar é por isso é que cada vez há mais divórcios, pois a tolerância para com o outro é mínima, pois a nossa sociedade assim se tem alterado. Não é que ás vezes não seja o melhor, mas primeiro acho que se devem esgotar todas as formas de resolução. E assim terminamos mais um ciclo, onde uns desistem e outros continuam, É A VIDA.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Excertos de uma entrevista dada a um atleta, no âmbito de um trabalho escolar

O meu atleta David Correia realizou-me uma entrevista, com algumas perguntas interessantes e das quais vos quero transmitir um excerto das mesmas.
David - Sendo uma pessoa com regras e princípios próprios, explique-nos como é que o seu “ser” funciona, e como consegue lidar com as faltas de respeito e irresponsabilidade dos outros no dia-a-dia.
Nuno Maria - Ao longo do tempo tem sido cada vez mais difícil, pois na maioria dos casos é muito difícil suportar. Tento sempre ver o enquadramento de cada situação, de cada pessoa, mas quando já temos alguma cumplicidade com o grupo e as coisas persistem é muito difícil entender e é preciso actuar. Sei também que a exigência é sinónimo de qualidade no desporto que lidero, sei que só com regras muito bem definidas e cumpridas se pode alcançar o sucesso e que o sucesso é a etapa final de cada atleta, pois está comprovado que mais depressa desistem os derrotados do que os vencedores. A outra situação das faltas de respeito é um problema cultural, familiar e que cada vez mais me deparo, tanto na escola como no desporto e que como educador não posso permitir, mas que continuam a acontecer continuam, mas este tipo de reflexões têm de ser feitas por muitos intervenientes no processo educativo dos jovens, não posso eu estar a tentar incutir um conjunto de normas, quando estas em outros locais não são a referência dos mesmos jovens. Sei também que a idade é sinónimo de aprendizagem e por vezes vou desculpando, pois acho que com o tempo as situações e as pessoas mudam, mas nem sempre acontece, por vezes até se agravam. Por isso digo, ás vezes as noites são longas, pensar que aquele jovem por quem temos tanto apreço, segue caminhos divergentes e impróprios, fazem-me reflectir bastante, mas como a minha mãe costuma dizer, “não penses que podes salvar o mundo, se salvares um ou dois já é bom”.
David - Sendo assim, não se deve considerar a pessoa mais feliz do mundo, por ver que a maior lacuna dos seus “discípulos” (CIRL e ELA), era o ponto forte das suas antigas equipas?
Nuno Maria - Sinto-me feliz sim, senão já não me dedicava ao voleibol. Não consigo fazer uma análise assim tão comparativa, muitos factores são diferentes. Cada grupo de trabalho tem as suas características, pois cada equipa é constituída por um conjunto de pessoas totalmente diferentes. Em todas existem coisas boas e menos boas, em todas existem problemas e alegrias. A riqueza de lidar com muitos grupos é conhecer todo o tipo de pessoas, todo o tipo de educações, todas as formas de personalidade e tentar juntá-las em prol de um objectivo comum, é difícil, mas muito gratificante e enriquecedor. É claramente muito desgastante, pois por vezes é preciso ser pai, treinador, seccionista, médico, amigo e ainda viver a própria vida, levar muitos destes problemas para casa é muito cansativo, mas para mim contribuir para a formação de todas estas pessoas e atletas que tenho trabalhado é o mais importante. Dificilmente chego a todos, mas saiu com a consciência que tentei fazê-lo e isso para mim é que conta. Ao nível das características dos atletas, também é difícil comparar, pois os tempos são outros, o voleibol praticado é outro, muita coisa diverge, é óbvio que tento sempre melhorar todos os aspectos dos atletas e que o resultado final tem elos de ligação, sobretudo ao nível técnico, mas o resultado tem de ser sempre diferente, pois tento sempre rentabilizar cada atleta e cada um tem características diferentes que fazem com que a forma de jogar das equipas seja diferente, de umas para as outras. Agora a vontade e a atitude para com o jogo deveriam ser similares, mas não têm sido, e isso está directamente relacionado com a resposta anterior.
David - Sendo o irmão mais velho sente que já alguma vez foi o ídolo dos seus irmãos? E por isso também eles pratiquem voleibol?
Nuno Maria - Ídolo acho que é uma palavra muito forte, agora referência espero bem que sim, pois mesmo enquanto treinador deles, sobretudo do Hugo, (pois foi quem trabalhou comigo federado) sempre tentei incutir-lhe princípios que considero fundamentais para se ser bom atleta, não é que seja dono da razão, mais há coisas que têm de seguir um processo para se atingir um fim e só com muito rigor e exigência se consegue, senão somos somente mais uns e ser igual a tantos outros não me agrada. Agora o facto de eu me ter iniciado no voleibol, acho que fez com que eles despertassem em si também a mesma modalidade, mas nada imposto, tudo por gosto.
David - De certo que o respeito e orgulho, que sente pelos seus irmãos Hugo e Telmo são diferentes, embora, o amor sentido por ambos seja incondicional e inquestionável, ou será uma perspectiva errada?
Nuno Maria
- O respeito, o orgulho e o amor não são diferentes, amo os dois da mesma forma, porque são seres diferentes, mas ambos com grandes qualidades. Por vezes as distâncias de idades aproximavam mais um do que o outro, pois o desenvolvimento natural é assim mesmo, mas quando atingi alguma maturidade, foi mais fácil eu me aproximar de ambos, acho que tenho conseguido, mas nunca se sabe se totalmente ou parcialmente. Sinceramente acho que uma palavra que define bem a nossa relação é cumplicidade.
David - Qual foi o momento mais marcante da sua carreira como jogador?
Nuno Maria - Graças a Deus tenho muitos momentos marcantes pela positiva e são esses momentos que alimentaram o meu gosto pelo voleibol, o início no Desporto Escolar, a minha primeira equipa federada, o resultado mais significativo, a subida de divisão, os amigos, as deslocações, muitos são os momentos marcantes que de certeza se respondesse a esta pergunta amanhã diria mais uns quantos. Dos momentos marcantes negativos não quero falar, pois os positivos em muito superam os negativos e isso é que importa para mim.
David -Com um curriculum desportivo e profissional tão vasto, com qual equipa é que se identifica?
Nuno Maria- Em todas elas me identifico com alguma ou muitas coisas, como expliquei anteriormente a identidade de cada grupo, tem coisas boas e menos boas, mas para mim o conjunto de todas e a individualidade de cada, é que é a minha identidade.
David - Mas de qualquer forma, com um curriculum tão vasto, e com um nível de formação claramente bastante positivo, porquê começar e formar equipas de volley de baixo escalão (mini-volley, iniciados) com a probabilidade de ter o desgosto de ver esse grupo a ser despedaçado com o tempo, enquanto, em vez disso poderia treinar uma equipa de alto nível?
Nuno Maria
- Eu não penso assim, sempre me liguei muito aos grupos que formei e tentei sempre dar o meu melhor em prol da equipa. Não penso naqueles que vão desistir, penso sim que enquanto estão comigo tenho o dever de os formar o melhor possível e que se algum dia não se sentirem bem, não ficarei chateado com ninguém por desistirem ou procurarem outro caminho. Por outro lado sou professor, é a minha profissão e um dos motivos por a exercer é porque adoro ensinar crianças, jovens que estão num processo de desenvolvimento e aprendizagem e que absorvem muita da informação dada. O trabalho com grupos seniores também é gratificante e sempre gostei, mas neste momento tenho dois grupos de trabalho que quero deixar nos seniores e que gostava de os manter, mas face á minha vida profissional dificilmente será possível. O treinar equipas de alto nível já foi uma ambição e já se podia ter concretizado, mas as equipas de voleibol, de alta competição em Portugal, são maioritariamente amadoras e dificilmente alimentam alguém. Para terminar quero salientar que nesta altura já estou com menos paciência para voltar a iniciar outra equipa, principalmente porque quero dedicar mais tempo à minha família que acaba por ser a grande prejudicada.
David - Quando era treinador/jogador ao mesmo tempo (situação pouco normal) não se sentia superior em relação aos seus colegas ou um diferente tipo de relacionamento de forma que se sentisse excluído?
Nuno Maria - Nunca me assumi enquanto treinador, pela manifestação da superioridade, sempre tentei ser mais um elemento da equipa, sempre tentei exercer a minha liderança através da pessoa que sou e nunca pelo autoritarismo. Como disse este é um desporto de amores, dá treinos quem gosta, treina quem gosta e se não existir uma relação muito próxima é difícil formar uma grande equipa. Todos os intervenientes devem saber bem qual a sua função, quais os seus objectivos e saber se estão dispostos a assumir responsabilidades, pois só assim é possível todos acreditarem e todos trabalharem para o mesmo. Como é óbvio existiram momentos de decisão e imposição, mas nunca tive situações muito problemáticas, nem quando fui jogador/treinador. O facto de ser jogador/treinador foi ainda mais exigente para mim, pois tinha sempre dois pensamentos, o do atleta e o do treinador, mas para mim foi sempre muito positivo. Se me perguntarem, mas não acha que devias ter saído do jogo mais cedo, neste ou naquele jogo, eu respondo talvez, mas se não o fiz foi porque achei que era melhor para a equipa e não para mim.

domingo, 1 de março de 2009

Elementos de Vitória

"Estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a vencer. Muitos deles contêm indicações interessantes, por vezes aproveitáveis. Quase todos se reportam particularmente ao êxito material, o que é explicável, pois é esse o que supremamente interessa a grande maioria dos homens. A ciência de vencer é, contudo, facílima de expor; em aplicá-la, ou não, é que está o segredo do êxito ou a explicação da falta dele. Para vencer - material ou imaterialmente - três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama sorte. Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho. Saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até o fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada. Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas também achá-las. Criar relações tem dois sentidos - um para a vida material, outro para a vida mental. Na vida material a expressão tem o seu sentido directo. Na vida mental significa criar cultura. A história não regista um grande triunfador material isolado, nem um grande triunfador mental inculto. Da simples "vontade" vivem só os pequenos comerciantes; da simples "inspiração" vivem só os pequenos poetas. A lei é uma para todos."
Fernando Pessoa, in 'Teoria e Prática do Comércio'

Responsabilidade (1)

"As pessoas fogem às responsabilidades, e essa atitude é uma das causas de mal-estar. Pensam que as responsabilidades desaparecem por si se as ignorarem ou evitarem. A base da evolução e a realização é a responsabilidade. Responsabilidade é o preço a pagar pelo direito de fazermos as nossas próprias escolhas. Responsabilidade é apenas outra palavra para designar oportunidade. E tornamo-nos ricos ou pobres para sempre conforme aproveitarmos ou deixarmos fugir a oportunidade."
Alfred Montapert, in 'A Suprema Filosofia do Homem'

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A Avaliação

Toda a nossa vida se rege por uma avaliação diária, uma avaliação de atitudes, uma avaliação de saberes, uma avaliação de sentimentos, tudo é avaliado. A forma como falas, como andas, como sentes, como reages, como exteriorizas, tudo é avaliado. Mas afinal o que é avaliação, para mim é fácil, é só saber o que é o bem, o que é o mal e o que fiz afinal, tão simples, só tenho é pena de não saber o que é o bem, o que é o mal e por vezes o que é que eu fiz. Mas porque é que quando existe um processo de avaliação, este nunca é simples, para mim é simples, é porque avaliar é complexo. Medir palavras, medir actos, medir tudo o que faço, estou cansado da avaliação. É na rua, é no trabalho, é no desporto, até nas compras e nos passeios, sempre a ser avaliado. Ás vezes penso que existe um OLHO, que está constantemente a olhar para mim, porque tudo o que faço é avaliado e tem consequências. Ás vezes também confundo avaliação com responsabilidades. Avaliação é sempre sinónimo de avaliador e avaliado, alguém tem de fazer alguma coisa para o outro avaliar, quem avalia deve reger-se por normas e quem é avaliado deve saber que normas são essas. O bom senso também entra aqui, fala-se que é preciso ter bom senso para avaliar, mas o bom senso é aquela coisa que todos deviam ter, mas ninguém sabe concretamente o que é. Mas uma avaliação tem como produto final, sempre um resultado, resultado esse que deve ser objectivo, mas que raramente o é. Há aqueles que toda a vida foram avaliadores, há aqueles que toda a vida foram avaliados, mas lá no fundo todos foram avaliadores e avaliados.
"Viagens na minha alma" - Nuno Maria

Hugo Maria - Voleibol