E eis que chegámos a mais uma fase difícil da formação de jovens atletas. É a altura dos jovens começarem a fazer as suas escolhas e de começarem a planificar a sua vida pessoal. Esta é a altura para se separar aqueles que realmente gostam e querem, daqueles que andaram a passar o tempo. É um pouco doloroso para mim que dou muito de mim em prol de todos e que vejo alguns a partirem, mas sei que é mesmo assim. Aqueles que vão sair raramente têm capacidade de ver que já não conseguiam lá estar e que normalmente arranjam um pretexto para sair. Esta tem sido uma constatação que tenho feito, mas para mim tem sempre um sabor a amargo, depois de tudo o que se faz por eles, o mais digno e o que considero mais razoável era agradecerem o que fiz por eles e seguirem suas vidas de consciência tranquila, assim arranjando pretextos mal fundamentados é menos ético e levam um peso consigo. Todos temos de ter a humildade para reconhecer que em muitos momentos da vida, todos falhamos, mas mais difícil ainda é saber perdoar os erros. Esta é uma filosofia de vida para mim, não é só da boca para fora. Isto para dizer, que por muitos erros que eu tenha cometido, estes foram sempre com o objectivo de ajudar cada um, e de ajudar um todo, a equipa e que quando não concordam com a pessoa que lidera têm de saber aceitar. Agora o mais grave de tudo é quando se pensa que o outro erra e estamos errados, pois é mais fácil criticar o próximo do que aceitar que se erra, aí sim é difícil de se alcançar e poucos conseguem fazer uma introspecção e verificar que afinal o erro era seu. Quando se tem uma função numa equipa é preciso saber bem a sua importância e quando se desviamos dessa função é preciso pedir ajuda para voltarmos ao caminho certo. As relações inter-pessoais nunca são fáceis, as equipas por vezes são como famílias, têm períodos menos bons, com discussões, com problemas e se sempre que aparecesse um problema, houvesse um divórcio, estávamos mal, mas se calhar é por isso é que cada vez há mais divórcios, pois a tolerância para com o outro é mínima, pois a nossa sociedade assim se tem alterado. Não é que ás vezes não seja o melhor, mas primeiro acho que se devem esgotar todas as formas de resolução. E assim terminamos mais um ciclo, onde uns desistem e outros continuam, É A VIDA.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Excertos de uma entrevista dada a um atleta, no âmbito de um trabalho escolar
O meu atleta David Correia realizou-me uma entrevista, com algumas perguntas interessantes e das quais vos quero transmitir um excerto das mesmas.
David - Sendo uma pessoa com regras e princípios próprios, explique-nos como é que o seu “ser” funciona, e como consegue lidar com as faltas de respeito e irresponsabilidade dos outros no dia-a-dia.
Nuno Maria - Ao longo do tempo tem sido cada vez mais difícil, pois na maioria dos casos é muito difícil suportar. Tento sempre ver o enquadramento de cada situação, de cada pessoa, mas quando já temos alguma cumplicidade com o grupo e as coisas persistem é muito difícil entender e é preciso actuar. Sei também que a exigência é sinónimo de qualidade no desporto que lidero, sei que só com regras muito bem definidas e cumpridas se pode alcançar o sucesso e que o sucesso é a etapa final de cada atleta, pois está comprovado que mais depressa desistem os derrotados do que os vencedores. A outra situação das faltas de respeito é um problema cultural, familiar e que cada vez mais me deparo, tanto na escola como no desporto e que como educador não posso permitir, mas que continuam a acontecer continuam, mas este tipo de reflexões têm de ser feitas por muitos intervenientes no processo educativo dos jovens, não posso eu estar a tentar incutir um conjunto de normas, quando estas em outros locais não são a referência dos mesmos jovens. Sei também que a idade é sinónimo de aprendizagem e por vezes vou desculpando, pois acho que com o tempo as situações e as pessoas mudam, mas nem sempre acontece, por vezes até se agravam. Por isso digo, ás vezes as noites são longas, pensar que aquele jovem por quem temos tanto apreço, segue caminhos divergentes e impróprios, fazem-me reflectir bastante, mas como a minha mãe costuma dizer, “não penses que podes salvar o mundo, se salvares um ou dois já é bom”.
David - Sendo assim, não se deve considerar a pessoa mais feliz do mundo, por ver que a maior lacuna dos seus “discípulos” (CIRL e ELA), era o ponto forte das suas antigas equipas?
Nuno Maria - Sinto-me feliz sim, senão já não me dedicava ao voleibol. Não consigo fazer uma análise assim tão comparativa, muitos factores são diferentes. Cada grupo de trabalho tem as suas características, pois cada equipa é constituída por um conjunto de pessoas totalmente diferentes. Em todas existem coisas boas e menos boas, em todas existem problemas e alegrias. A riqueza de lidar com muitos grupos é conhecer todo o tipo de pessoas, todo o tipo de educações, todas as formas de personalidade e tentar juntá-las em prol de um objectivo comum, é difícil, mas muito gratificante e enriquecedor. É claramente muito desgastante, pois por vezes é preciso ser pai, treinador, seccionista, médico, amigo e ainda viver a própria vida, levar muitos destes problemas para casa é muito cansativo, mas para mim contribuir para a formação de todas estas pessoas e atletas que tenho trabalhado é o mais importante. Dificilmente chego a todos, mas saiu com a consciência que tentei fazê-lo e isso para mim é que conta. Ao nível das características dos atletas, também é difícil comparar, pois os tempos são outros, o voleibol praticado é outro, muita coisa diverge, é óbvio que tento sempre melhorar todos os aspectos dos atletas e que o resultado final tem elos de ligação, sobretudo ao nível técnico, mas o resultado tem de ser sempre diferente, pois tento sempre rentabilizar cada atleta e cada um tem características diferentes que fazem com que a forma de jogar das equipas seja diferente, de umas para as outras. Agora a vontade e a atitude para com o jogo deveriam ser similares, mas não têm sido, e isso está directamente relacionado com a resposta anterior.
David - Sendo o irmão mais velho sente que já alguma vez foi o ídolo dos seus irmãos? E por isso também eles pratiquem voleibol?
Nuno Maria - Ídolo acho que é uma palavra muito forte, agora referência espero bem que sim, pois mesmo enquanto treinador deles, sobretudo do Hugo, (pois foi quem trabalhou comigo federado) sempre tentei incutir-lhe princípios que considero fundamentais para se ser bom atleta, não é que seja dono da razão, mais há coisas que têm de seguir um processo para se atingir um fim e só com muito rigor e exigência se consegue, senão somos somente mais uns e ser igual a tantos outros não me agrada. Agora o facto de eu me ter iniciado no voleibol, acho que fez com que eles despertassem em si também a mesma modalidade, mas nada imposto, tudo por gosto.
David - De certo que o respeito e orgulho, que sente pelos seus irmãos Hugo e Telmo são diferentes, embora, o amor sentido por ambos seja incondicional e inquestionável, ou será uma perspectiva errada?
Nuno Maria - O respeito, o orgulho e o amor não são diferentes, amo os dois da mesma forma, porque são seres diferentes, mas ambos com grandes qualidades. Por vezes as distâncias de idades aproximavam mais um do que o outro, pois o desenvolvimento natural é assim mesmo, mas quando atingi alguma maturidade, foi mais fácil eu me aproximar de ambos, acho que tenho conseguido, mas nunca se sabe se totalmente ou parcialmente. Sinceramente acho que uma palavra que define bem a nossa relação é cumplicidade.
David - Qual foi o momento mais marcante da sua carreira como jogador?
Nuno Maria - Graças a Deus tenho muitos momentos marcantes pela positiva e são esses momentos que alimentaram o meu gosto pelo voleibol, o início no Desporto Escolar, a minha primeira equipa federada, o resultado mais significativo, a subida de divisão, os amigos, as deslocações, muitos são os momentos marcantes que de certeza se respondesse a esta pergunta amanhã diria mais uns quantos. Dos momentos marcantes negativos não quero falar, pois os positivos em muito superam os negativos e isso é que importa para mim.
David -Com um curriculum desportivo e profissional tão vasto, com qual equipa é que se identifica?
Nuno Maria- Em todas elas me identifico com alguma ou muitas coisas, como expliquei anteriormente a identidade de cada grupo, tem coisas boas e menos boas, mas para mim o conjunto de todas e a individualidade de cada, é que é a minha identidade.
David - Mas de qualquer forma, com um curriculum tão vasto, e com um nível de formação claramente bastante positivo, porquê começar e formar equipas de volley de baixo escalão (mini-volley, iniciados) com a probabilidade de ter o desgosto de ver esse grupo a ser despedaçado com o tempo, enquanto, em vez disso poderia treinar uma equipa de alto nível?
Nuno Maria - Eu não penso assim, sempre me liguei muito aos grupos que formei e tentei sempre dar o meu melhor em prol da equipa. Não penso naqueles que vão desistir, penso sim que enquanto estão comigo tenho o dever de os formar o melhor possível e que se algum dia não se sentirem bem, não ficarei chateado com ninguém por desistirem ou procurarem outro caminho. Por outro lado sou professor, é a minha profissão e um dos motivos por a exercer é porque adoro ensinar crianças, jovens que estão num processo de desenvolvimento e aprendizagem e que absorvem muita da informação dada. O trabalho com grupos seniores também é gratificante e sempre gostei, mas neste momento tenho dois grupos de trabalho que quero deixar nos seniores e que gostava de os manter, mas face á minha vida profissional dificilmente será possível. O treinar equipas de alto nível já foi uma ambição e já se podia ter concretizado, mas as equipas de voleibol, de alta competição em Portugal, são maioritariamente amadoras e dificilmente alimentam alguém. Para terminar quero salientar que nesta altura já estou com menos paciência para voltar a iniciar outra equipa, principalmente porque quero dedicar mais tempo à minha família que acaba por ser a grande prejudicada.
David - Quando era treinador/jogador ao mesmo tempo (situação pouco normal) não se sentia superior em relação aos seus colegas ou um diferente tipo de relacionamento de forma que se sentisse excluído?
Nuno Maria - Nunca me assumi enquanto treinador, pela manifestação da superioridade, sempre tentei ser mais um elemento da equipa, sempre tentei exercer a minha liderança através da pessoa que sou e nunca pelo autoritarismo. Como disse este é um desporto de amores, dá treinos quem gosta, treina quem gosta e se não existir uma relação muito próxima é difícil formar uma grande equipa. Todos os intervenientes devem saber bem qual a sua função, quais os seus objectivos e saber se estão dispostos a assumir responsabilidades, pois só assim é possível todos acreditarem e todos trabalharem para o mesmo. Como é óbvio existiram momentos de decisão e imposição, mas nunca tive situações muito problemáticas, nem quando fui jogador/treinador. O facto de ser jogador/treinador foi ainda mais exigente para mim, pois tinha sempre dois pensamentos, o do atleta e o do treinador, mas para mim foi sempre muito positivo. Se me perguntarem, mas não acha que devias ter saído do jogo mais cedo, neste ou naquele jogo, eu respondo talvez, mas se não o fiz foi porque achei que era melhor para a equipa e não para mim.
Nuno Maria - Sinto-me feliz sim, senão já não me dedicava ao voleibol. Não consigo fazer uma análise assim tão comparativa, muitos factores são diferentes. Cada grupo de trabalho tem as suas características, pois cada equipa é constituída por um conjunto de pessoas totalmente diferentes. Em todas existem coisas boas e menos boas, em todas existem problemas e alegrias. A riqueza de lidar com muitos grupos é conhecer todo o tipo de pessoas, todo o tipo de educações, todas as formas de personalidade e tentar juntá-las em prol de um objectivo comum, é difícil, mas muito gratificante e enriquecedor. É claramente muito desgastante, pois por vezes é preciso ser pai, treinador, seccionista, médico, amigo e ainda viver a própria vida, levar muitos destes problemas para casa é muito cansativo, mas para mim contribuir para a formação de todas estas pessoas e atletas que tenho trabalhado é o mais importante. Dificilmente chego a todos, mas saiu com a consciência que tentei fazê-lo e isso para mim é que conta. Ao nível das características dos atletas, também é difícil comparar, pois os tempos são outros, o voleibol praticado é outro, muita coisa diverge, é óbvio que tento sempre melhorar todos os aspectos dos atletas e que o resultado final tem elos de ligação, sobretudo ao nível técnico, mas o resultado tem de ser sempre diferente, pois tento sempre rentabilizar cada atleta e cada um tem características diferentes que fazem com que a forma de jogar das equipas seja diferente, de umas para as outras. Agora a vontade e a atitude para com o jogo deveriam ser similares, mas não têm sido, e isso está directamente relacionado com a resposta anterior.
David - Sendo o irmão mais velho sente que já alguma vez foi o ídolo dos seus irmãos? E por isso também eles pratiquem voleibol?
Nuno Maria - Ídolo acho que é uma palavra muito forte, agora referência espero bem que sim, pois mesmo enquanto treinador deles, sobretudo do Hugo, (pois foi quem trabalhou comigo federado) sempre tentei incutir-lhe princípios que considero fundamentais para se ser bom atleta, não é que seja dono da razão, mais há coisas que têm de seguir um processo para se atingir um fim e só com muito rigor e exigência se consegue, senão somos somente mais uns e ser igual a tantos outros não me agrada. Agora o facto de eu me ter iniciado no voleibol, acho que fez com que eles despertassem em si também a mesma modalidade, mas nada imposto, tudo por gosto.
David - De certo que o respeito e orgulho, que sente pelos seus irmãos Hugo e Telmo são diferentes, embora, o amor sentido por ambos seja incondicional e inquestionável, ou será uma perspectiva errada?
Nuno Maria - O respeito, o orgulho e o amor não são diferentes, amo os dois da mesma forma, porque são seres diferentes, mas ambos com grandes qualidades. Por vezes as distâncias de idades aproximavam mais um do que o outro, pois o desenvolvimento natural é assim mesmo, mas quando atingi alguma maturidade, foi mais fácil eu me aproximar de ambos, acho que tenho conseguido, mas nunca se sabe se totalmente ou parcialmente. Sinceramente acho que uma palavra que define bem a nossa relação é cumplicidade.
David - Qual foi o momento mais marcante da sua carreira como jogador?
Nuno Maria - Graças a Deus tenho muitos momentos marcantes pela positiva e são esses momentos que alimentaram o meu gosto pelo voleibol, o início no Desporto Escolar, a minha primeira equipa federada, o resultado mais significativo, a subida de divisão, os amigos, as deslocações, muitos são os momentos marcantes que de certeza se respondesse a esta pergunta amanhã diria mais uns quantos. Dos momentos marcantes negativos não quero falar, pois os positivos em muito superam os negativos e isso é que importa para mim.
David -Com um curriculum desportivo e profissional tão vasto, com qual equipa é que se identifica?
Nuno Maria- Em todas elas me identifico com alguma ou muitas coisas, como expliquei anteriormente a identidade de cada grupo, tem coisas boas e menos boas, mas para mim o conjunto de todas e a individualidade de cada, é que é a minha identidade.
David - Mas de qualquer forma, com um curriculum tão vasto, e com um nível de formação claramente bastante positivo, porquê começar e formar equipas de volley de baixo escalão (mini-volley, iniciados) com a probabilidade de ter o desgosto de ver esse grupo a ser despedaçado com o tempo, enquanto, em vez disso poderia treinar uma equipa de alto nível?
Nuno Maria - Eu não penso assim, sempre me liguei muito aos grupos que formei e tentei sempre dar o meu melhor em prol da equipa. Não penso naqueles que vão desistir, penso sim que enquanto estão comigo tenho o dever de os formar o melhor possível e que se algum dia não se sentirem bem, não ficarei chateado com ninguém por desistirem ou procurarem outro caminho. Por outro lado sou professor, é a minha profissão e um dos motivos por a exercer é porque adoro ensinar crianças, jovens que estão num processo de desenvolvimento e aprendizagem e que absorvem muita da informação dada. O trabalho com grupos seniores também é gratificante e sempre gostei, mas neste momento tenho dois grupos de trabalho que quero deixar nos seniores e que gostava de os manter, mas face á minha vida profissional dificilmente será possível. O treinar equipas de alto nível já foi uma ambição e já se podia ter concretizado, mas as equipas de voleibol, de alta competição em Portugal, são maioritariamente amadoras e dificilmente alimentam alguém. Para terminar quero salientar que nesta altura já estou com menos paciência para voltar a iniciar outra equipa, principalmente porque quero dedicar mais tempo à minha família que acaba por ser a grande prejudicada.
David - Quando era treinador/jogador ao mesmo tempo (situação pouco normal) não se sentia superior em relação aos seus colegas ou um diferente tipo de relacionamento de forma que se sentisse excluído?
Nuno Maria - Nunca me assumi enquanto treinador, pela manifestação da superioridade, sempre tentei ser mais um elemento da equipa, sempre tentei exercer a minha liderança através da pessoa que sou e nunca pelo autoritarismo. Como disse este é um desporto de amores, dá treinos quem gosta, treina quem gosta e se não existir uma relação muito próxima é difícil formar uma grande equipa. Todos os intervenientes devem saber bem qual a sua função, quais os seus objectivos e saber se estão dispostos a assumir responsabilidades, pois só assim é possível todos acreditarem e todos trabalharem para o mesmo. Como é óbvio existiram momentos de decisão e imposição, mas nunca tive situações muito problemáticas, nem quando fui jogador/treinador. O facto de ser jogador/treinador foi ainda mais exigente para mim, pois tinha sempre dois pensamentos, o do atleta e o do treinador, mas para mim foi sempre muito positivo. Se me perguntarem, mas não acha que devias ter saído do jogo mais cedo, neste ou naquele jogo, eu respondo talvez, mas se não o fiz foi porque achei que era melhor para a equipa e não para mim.
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