O número de profissionais no voleibol português é tão reduzido que não permite um desenvolvimento sustentado do mesmo, são precisas pessoas para pensar, para operacionalizar a tempo inteiro, dedicando-se a esta modalidade e desenvolvendo uma estrutura profissional. Essa estrutura tem de ter dirigentes, técnicos e atletas profissionais, tem de ter um leque bem mais alargado de pessoas que vivam e trabalhem só para o voleibol.
Não tenho dúvidas que neste momento dos quatro desportos coletivos mais praticados em Portugal que o voleibol é o mais amador e rudimentar nos processos, no entanto o segundo mais praticado entre atletas federados e praticantes do desporto escolar.
Exige-se um processo de formação de treinadores, exige-se a continuidade desta mesma formação, pede-se aos treinadores que paguem isto tudo e que ainda sejam formadores dos seus pares ( e não lhes paguem), que estes paguem um certificado temporário, pois certamente perderam as habilitações com o tempo, lol, que tenham horas de estágio, horas de formação obrigatórias, resumindo nas obrigações institucionais são tratados como profissionais, mas nos direitos em serem devidamente enquadrados e reconhecidos não. O treinador paga a sua formação, paga tudo o resto e depois o que recebe? Qual o enquadramento que faz com que um treinador "qualificado" seja remunerado e exerça efetivamente o seu papel de treinador dentro das condições que lhe são apresentadas nas formações. Que condições existem para a maioria dos treinadores nacionais?
O papel do treinador numa sociedade é deveras importante para ser tratado com tamanha leviandade, o treinador de voleibol em Portugal, na maioria dos clubes, é uma pessoa que trata da parte burocrática, que trata de apoios, que trata de toda a logística do treino e do jogo, que trata do relacionamento institucional, que educa os atletas e os pais, que trata da vertente humana de cada atleta, que é psicólogo, que muitas vezes é pai e mãe, é amigo, é também condutor, é roupeiro, é estatístico, fisioterapeuta, preparador de treinos e jogos e depois de tudo isto lá tenta ensinar os fundamentos do voleibol. E quando é que faz isto tudo? Quando? No seu tempo livre, depois do seu trabalho, entrando no pavilhão, montando campos e material de apoio, ouvindo mil problemas, entre os problemas lá dá uns treinos, no final do treino o que há? Mais problemas para resolver e coisas para ouvir, depois lá vai jantar ou tomar a seia, pois vontade de comer já lá vai, fazendo ao mesmo tempo o balanço do treino e preparando o próximo treino e depois o restoooo. E a vida pessoal de cada um destes seres metódicos, desumanos ( pois humanamente não é possível), sem família (pois quem tenha, coitada da mesma). Estes super-homens e super-mulheres, o que recebem em troca? Muitas vezes nem para o gasóleo, muitas vezes são eles que põem do bolso para que as coisas andem, são estes os treinadores que lhes exigem que sejam treinadores certificados. Estes são os treinadores que ainda ouvem alguns pais, estes são os treinadores que ainda tentam explicar aos atletas que os princípios que ele transmite/ exige como sendo os básicos, são aqueles que devem ser cumpridos, são estes os treinadores que não têm férias, pois quando há paragens dão treinos e quando pára a época já estão a preparar a próxima. São estes que acabam um jogo e estão a pensar no próximo, são estes que são o exemplo para os atletas. São estes que são os amadores.
O que os move é a paixão ao voleibol, o ensinar o próximo, as crianças que adoram jogar, os graúdos que mantêm vivo esse bichinho, o resto são tangas.
Só mais uma coisa estes estão em constante avaliação, se ganham são muito bons se perdem são muito maus (mentalidade futebolística), mas como é possível saberem se são bons ou maus se no final de contas aquilo que menos fazem é serem treinadores.
Não digam nada a ninguém mas há poucos que são TREINADORES em Portugal, eu ainda sonho ser, como muitos sonham, mas não se iludam pois o que fazemos na maior parte das vezes é enquadrar um hobbie que temos, pois em Portugal não nos deixam ser treinadores.
Mas não se esqueçam que sem vocês a sociedade seria muito mais pobre.
Bem hajam aos treinadores e pseudo-treinadores de voleibol em Portugal.