sábado, 19 de abril de 2014

Ser treinador de voleibol em Portugal

Ser treinador de voleibol em Portugal é mais um dos reflexos da cultura voleibolistica do país, que vê nesta modalidade uma brincadeira amadora, onde muitos carolas e verdadeiramente apaixonados dignificam e dão alguma dignidade a este jogo.
O número de profissionais no voleibol português é tão reduzido que não permite um desenvolvimento sustentado do mesmo, são precisas pessoas para pensar, para operacionalizar a tempo inteiro, dedicando-se a esta modalidade e desenvolvendo uma estrutura profissional. Essa estrutura tem de ter dirigentes, técnicos e atletas profissionais, tem de ter um leque bem mais alargado de pessoas que vivam e trabalhem só para o voleibol.
Não tenho dúvidas que neste momento dos quatro desportos coletivos mais praticados em Portugal que o voleibol é o mais amador e rudimentar nos processos, no entanto o segundo mais praticado entre atletas federados e praticantes do desporto escolar. 
Exige-se um processo de formação de treinadores, exige-se a continuidade desta mesma formação, pede-se aos treinadores que paguem isto tudo e que ainda sejam formadores dos seus pares ( e não lhes paguem), que estes paguem um certificado temporário, pois certamente perderam as habilitações com o tempo, lol, que tenham horas de estágio, horas de formação obrigatórias, resumindo nas obrigações institucionais são tratados como profissionais, mas nos direitos em serem devidamente enquadrados e reconhecidos não. O treinador paga a sua formação, paga tudo o resto e depois o que recebe? Qual o enquadramento que faz com que um treinador "qualificado" seja remunerado e exerça efetivamente o seu papel de treinador dentro das condições que lhe são apresentadas nas formações. Que condições existem para a maioria dos treinadores nacionais? 
O papel do treinador numa sociedade é deveras importante para ser tratado com tamanha leviandade, o treinador de voleibol em Portugal, na maioria dos clubes, é uma pessoa que trata da parte burocrática, que trata de apoios, que trata de toda a logística do treino e do jogo, que trata do relacionamento institucional, que educa os atletas e os pais, que trata da vertente humana de cada atleta, que é psicólogo, que muitas vezes é pai e mãe, é amigo, é também condutor, é roupeiro, é estatístico, fisioterapeuta, preparador de treinos e jogos e depois de tudo isto lá tenta ensinar os fundamentos do voleibol. E quando é que faz isto tudo? Quando? No seu tempo livre, depois do seu trabalho, entrando no pavilhão, montando campos e material de apoio, ouvindo mil problemas, entre os problemas lá dá uns treinos, no final do treino o que há? Mais problemas para resolver e coisas para ouvir, depois lá vai jantar ou tomar a seia, pois vontade de comer já lá vai, fazendo ao mesmo tempo o balanço do treino e preparando o próximo treino e depois o restoooo. E a vida pessoal de cada um destes seres metódicos, desumanos ( pois humanamente não é possível), sem família (pois quem tenha, coitada da mesma). Estes super-homens e super-mulheres, o que recebem em troca? Muitas vezes nem para o gasóleo, muitas vezes são eles que põem do bolso para que as coisas andem, são estes os treinadores que lhes exigem que sejam treinadores certificados. Estes são os treinadores que ainda ouvem alguns pais, estes são os treinadores que ainda tentam explicar aos atletas que os princípios que ele transmite/ exige como sendo os básicos, são aqueles que devem ser cumpridos, são estes os treinadores que não têm férias, pois quando há paragens dão treinos e quando pára a época já estão a preparar a próxima. São estes que acabam um jogo e estão a pensar no próximo, são estes que são o exemplo para os atletas. São estes que são os amadores.
O que os move é a paixão ao voleibol, o ensinar o próximo, as crianças que adoram jogar, os graúdos que mantêm vivo esse bichinho, o resto são tangas.
Só mais uma coisa estes estão em constante avaliação, se ganham são muito bons se perdem são muito maus (mentalidade futebolística), mas como é possível saberem se são bons ou maus se no final de contas aquilo que menos fazem é serem treinadores.
Não digam nada a ninguém mas há poucos que são TREINADORES em Portugal, eu ainda sonho ser, como muitos sonham, mas não se iludam pois o que fazemos na maior parte das vezes é enquadrar um hobbie que temos, pois em Portugal não nos deixam ser treinadores.
Mas não se esqueçam que sem vocês a sociedade seria muito mais pobre.
Bem hajam aos treinadores e pseudo-treinadores de voleibol em Portugal.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Onde anda a humildade, o obrigado, onde anda a educação desportiva?

Cada dia que passa mais preocupado fico, o vazio de valores é tão significativo que começo a não acreditar.
A falta de humildade e de agradecimento é um podre que parece que se propaga como de uma epidemia falássemos.
No meio destas dificuldades todas, ainda há quem ajude e muitos felizmente, agora quem precisa e recebe às vezes não percebe o que acontece, critica o que recebe e mais não agradece, como se quem dá fosse obrigado a dar e a dar aquilo que quer receber.
No extremo, se calhar alguns nem têm o que comer, mas pedem bife da vazia e se só lhe dão iscas, criticam, esquecendo-se do fundamental, que alguém lhe deu de comer.
Este é o reflexo daquilo que falei à uns anos atrás que o consumismo que dominava a nossa sociedade, renegava o essencial, para enaltecer o supérfluo, renegava a fome para valorizar a gula.
Habituaram-se a ter, a ter sem qualquer esforço, nunca foram educados para valorizar o que tinham e agora que não têm não sabem não ter e não sabem agradecer a quem lhes permite ter alguma coisa.
No associativismo, à quem não possa pagar para poder jogar, mas joga, há quem ainda reclame daquilo que lhe dão gratuitamente e que nunca tenha uma palavra de agradecimento, sim o obrigado aquela palavra educada, é algo difícil atualmente, mesmo dado, tem de ser arregaçado.
Mas de quem é a culpa, é nossa enquanto sociedade, da educação, o não, tem de ser dito pelos pais, não podes fazer, não podes ter, não, não... Se tens agradece, agradece por muito pouco que seja é dado, é um gesto de grandeza, de nobreza. 
Vejo em muitos clubes que acompanho algo que me preocupa também, os pais, que passam pela mesma dificuldade, alguns, como podem dar aos seus filhos tudo de bom e do melhor, têm dificuldade em entender que ou têm todos ou não tem nenhum, pois quem dá ou dá a todos ou a nenhuns, a ninguém pode ser negado o mesmo do que aos outros quando funcionamos numa sociedade fechada como por exemplo num clube.
Mas às vezes penso, como podem valorizar as crianças o que têm se às vezes são os pais a alimentar estas situações, hoje os pais querem saber porque os filhos não jogam se pagam, querem saber porque trabalham com crianças menos desenvolvidas se a minha criança é melhor, querem saber porque aquecem com aqueles, querem que as crianças vençam a todo o custo, independentemente da forma como se chega à vitória. Existe obviamente o contrário, senão já não via nem uma luz ao fundo do túnel. Na faculdade, em pedagogia do desporto, a excelência da sabedoria do meu professor, dizia numa das suas aulas, muitas vezes os pais são mais problemáticos do que os filhos, pois os filhos muitas vezes são o reflexo da falta de formação desportiva dos pais, no desporto todos acham que percebem, todos falam, por isso há jornais desportivos diários. Foi uma frase que nunca mais me esqueci, sempre a achei muito forte mas atualmente cada vez faz mais sentido em alguns contextos. 
Muitos pais ajudam, muitos sabem o seu lugar, mas muitos não sabem estar, nem sabem educar desportivamente os seus educandos, alguns vêm nos seus filhos aquilo que gostariam que eles fossem, vêm na criança aquilo que nunca conseguiram ser e querem resultados para ontem. O problema é que exigem, mas são os primeiros a incutir irresponsabilidade no cumprimento do processo de treino, a não responsabilizar o seu educando pelo incumprimento das regras definidas e do compromisso, mas depois questionam porque não joga. Como pode valorizar a criança o desporto, como pode reconhecer no treinador a disciplina que este impõe? Se o pai lhe diz como é possível não jogares, sem aparecer a um treino, sem saber o que se passa?
Resumindo, mesmo explicando continua-se a não saber o que é o processo de treino, como neste momento não existe tempo de aprendizagem informal ( o recreio, os jogos de rua) confunde-se isto com treino, nada mais errado.
Por isso hoje entre a falta de gratidão, entre a falta de agradecimento, entre a falta de noção de educação e a aquisição de valores, tudo se desenrola mal e o reflexo é visível é nos jovens adultos.


Hugo Maria - Voleibol