quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Obrigado pai e mãe pela educação que me deram

Percorro mil e um caminhos para tentar arranjar justificação para muitos comportamentos que assisto diariamente e volto sempre ao ponto de partida e à única justificação que considero plausível. A educação que nos foi dada pelos nossos pais é ela que nos deixa os valores, princípios e caminho que seguiremos a vida toda.
Nunca nos faltou nada, mas nunca ninguém esbanjou, nunca ninguém mostrou mais do que era e tinha, sempre cresci a ver muita humildade, trabalho e valorização do que se conquistava e ganhava e foi assim que cresci.
Minha mãe criou 3 rapazes, muitas vezes só, tratou-nos como ninguém, ainda hoje vive para o nosso bem estar diário. Meu pai trabalhou uma vida inteira, tubista, construiu silos pelo mundo fora, trabalhava seguidos 24h,48h,72h, passava meses e meses sem nos ver, anos atrás de anos, enquanto não terminasse as suas obrigações não descansava, enquanto não terminasse o último projeto não parava, nunca virou as costas a uma obra e quantas e quantas davam problemas. 
Vida dura, trabalhei um mês com ele e serviu para lhe dar mais valor ainda e para saber que aquilo não podia ser para mim. Perdeu muitos momentos importantes dos filhos, mas os filhos sempre perceberam o porquê.
Aprendemos vendo com o exemplo que nos deram, não me lembro de dias sem trabalhar em casa, muitos anos sem férias de família, muita humildade e honra. Nas obras aprende-se muito, aprendesse a lidar com aqueles que lutam todos os dias para levar alguma coisa para casa, que dão tudo, ali quem é que vira as costas? Não podem, senão não comem. Ali quando corre mal resolve-se rápido.
Mas há palavra, há honra, cumpre-se e assume-se.
Crescemos junto de quem mais necessitava, aprendemos a partilhar, a respeitar e a lutar, fosse quem fosse, vimos o que queríamos e o que não queríamos na rua, soubemos ser orientados e escolher o nosso caminho. Minha avó ainda hoje, mesmo vendo muito pouco sai à rua, vai às compras e todos os dias deixa mais do que um saco à porta das vizinhas que precisam.
E foi e é com os exemplos que a minha vida toda fui criado que hoje me deixam revoltado, que hoje não me deixam desistir e que hoje me obrigam a intervir. Vejo hoje a uma velocidade alucinante o declínio da humanidade, à uns anos dizia que era um vazio de valores, mas estamos já muito mais à frente. Não vamos conseguir viver em sociedade mais do que 100 anos e estou a ser otimista, poderei noutra ocasião justificar, mas hoje digo que sem educação não vamos continuar. Até 2008, aquilo que mais me fez pensar se queria ser pai era isto, esta desvalorização dos princípios fundamentais de vida, ninguém quer saber de ninguém, de nada, vale tudo, tudo é permitido, não há regras, não há autoridade, não há objetivos e onde a forma de vida se denomina de lassidão. 
E é um problema ainda maior quando tu vives todos os minutos esta situação, quando dás aulas, quando dás treinos, quando pensas que podes ajudar a formar melhores pessoas e melhores atletas e quando os atropelos se sobrepõem a tudo isto. Tudo é normal, tudo é explicável e tudo é grave quando tentas fazer aquilo que te compete, quer dizer, que antes tu achavas que competia, porque as dúvidas são mais que muitas neste momento. 
Todos os dias vemos e somos intervenientes ativos nesta pouca vergonha, acendemos a televisão e comemos a porcaria que somos, os coniventes com uma saúde, educação, justiça que nos deixam perder o pouco que ainda nos segurava, a dignidade. 
Tudo o que era negócio, bastava a palavra para se concretizar, hoje basta a palavra para se mandar abaixo o que os outros constroem e lutam. 
Vou bater-me sempre pelo respeito, mas não sei se vou conseguir, olho para o lado e a fila de desistentes é enorme, empurram-me para entrar nessa fila, não sei se vou ficar na minha fila.
De uma coisa eu sei, aos 40 anos, sobra-me o orgulho, pelos valores que me transmitiram, e pela luta que tenho para os transmitir, ajudar só a quem pedir, porque isto reverte-se facilmente e tu ajudas e ainda tens tu o dever de agradecer, porque o menino e a menina têm sempre razão.
Termino com o meu pensamento do dia, gozem a vida, porque senão alguém goza com a tua.
Obrigado aos meus pais por me educarem, no meu entender bem, mas acho que até eles já não sabem se bem ou mal, com o que assistem todos os dias.


sábado, 25 de março de 2017

A Cultura desportiva, os pais e treinadores

Continuamos muito longe de uma cultura desportiva, visível de forma vertical, onde os valores a incutir por todos junto daqueles que crescem praticando desporto deve ser basilar. Mas a educação desportiva não parte só do papel do treinador pois o papel do treinador dependerá sempre de outros fatores intrínsecos e extrínsecos, nomeadamente dos seus educadores. Se a formação desportiva não for partilhada pelo educador e pelo treinador, a criança/atleta andará no meio de um enleio que na sua cabeça não será percetível nem contribuirá para que o seu desenvolvimento seja o melhor. O desenvolvimento global, eclético e multilateral é reconhecidamente o melhor para cada criança/atleta, mas os princípios da prática desportiva têm de ser reconhecidos e alimentados, correndo-se o risco de não se adequar os princípios à realidade. O facilitismo e a super-proteção com que cada criança/atleta andam não é sinal de ajuda, uma criança tem de perceber o significado de competir, numa tenra idade ou em qualquer outra altura, obviamente que com objetivos e competências diferenciadas, mas é por exemplo preciso desmistificar o que é vencer, o que é competir, é preciso fazer entender que nem todos serão os melhores, nem todos serão campeões, mas todos que competem devem saber e procurar valores que são únicos da competição, para que depois saibam viver com eles. Durante estes anos como professor/treinador das coisas que mais tenho ouvido, é o reconhecimento dos alunos/atletas, pelo facto de eu lhes ter transmitido um conjunto de valores para a vida e para a sua prática desportiva. A assiduidade,  a pontualidade, o cumprimento, o empenho, o rigor, a ambição, o espírito de trabalho, de esforço, o querer ser melhor, lutar e por aí fora, têm de fazer parte do processo e não nos podemos demitir deles e devemos ser exemplo, porque em muitos casos e durante o crescimento, este é o único local onde isto pode acontecer, porque o resto ou é virtual ou é facilitado, sendo em muitas coisas atingidos objetivos falseados. 
Mas contribui também para esta realidade a dificuldade e a incompreensão dos pais face ao fenómeno desportivo. Os pais que ajudam no processo desportivo são sempre bem vindos e por norma INDISPENSÁVEIS, ainda existem uns quantos, no entanto o problema surge quando alguns não percebem a sua função enquanto pais, no desporto dos seus filhos, a sua “ajuda” não lhes dá aos filhos um estatuto de diferenciação. Os que ajudam não podem ver no seu filho o atleta que eles nunca foram, não pode sofrer por ele, arranjar problemas que para o filho não existem e fazem parte do seu crescimento, porque o solucionar de problemas é um contributo da prática de atividade física organizada, bem como o NÃO e a perceção que nem todos nasceram para serem os melhores e que para se alcançar alguma coisa tem de se trabalhar, conquistar. Mas não é assim no nosso quotidiano, quando chegamos a adultos? Ou formamos as crianças para a utopia de uma vida que não a real?
Então neste momento entramos num embate de ideais, não de ideias. É então que somos TODOS treinadores, coordenadores e diretores, cada um percebe mais e melhor, todos faziam melhor, mas muitas vezes porque as 2h que todos os dias passam na bancada tem de ser preenchida com alguma coisa e mais, as responsabilidades são sempre conectadas com os outros, pois eles sempre cumprem. Muitas vezes o cumprir passa por 20€ ou 25€, verba que na cabeça de muitos paga TUDO (na maioria das vezes nem ajuda para as ajudas de custo do treinador), e permiti-lhes TUDO, alguns nem isso fazem cumprir o que se propuseram e deixando que a sua irresponsabilidade afete aqueles que têm de cumprir, que na maior parte das vezes são aqueles que fazem tudo por carolice e amor aos filhos deles. Alguns, até ajudam, mas os restantes fazem o mais fácil, crítica fácil e destrutiva, pouco se chegam à frente para ajudar, e quando se chegam já se acham num patamar superior onde os outros ficaram em dívida para com eles. É fácil, ver, mandar umas bocas, dar a opinião sem ninguém pedir e em alguns casos exigir. 
Se os filhos jogam e não atingem o patamar que idealizam o treinador e o clube são maus, se os filhos jogam, mas não têm a preponderância que eles acham, está mal. Se o objetivo competitivo é prioritário, está mal, se o objetivo educacional está acima de tudo, está mal, resumindo bom bom é o filho jogar sempre e que a equipa ganhe sempre. Mas é o que infelizmente muitas vezes temos, achamos todos, todos percebemos, todos definimos objetivos individuais para as crianças e os coletivos são bons quando as crianças são “campeãs” e enchem o ego dos papás, mas o que importa não é o resultado, nem o imediato, é o processo a médio longo prazo, mas também só há a médio/longo prazo se a curto se perceber. 
Mas há melhor ainda, a amiga da amiga faz anos e... falto, há férias, e claro eu falto, há um jantar importantíssimo do XXXX e eu falto, mas depois a menina tem de jogar, como é que o treinador é tão incompreensivo? 
Depois o treinador, que durante o processo perde o discernimento e sai do foco definido, é fácil de acontecer, porque aquele que denominam por treinador, é aquele que depois de um dia de trabalho, vai dar treino, que preparou antecipadamente, aquele que acaba o treino, vai para casa e analisa o que fez e o que tem de alterar, é aquele que só com estas tarefas de treinador já o desgastavam o quanto baste, mas depois tem de ainda ajudar no clube, nos problemas das crianças, ouvir os pais, disponibilizar o seu fim de semana. Já pensaram porque é que tão poucos treinadores se mantém no ativo durante muito tempo? 
Mas o treinador também erra e é muito fácil errar, nem todos estão disponíveis para chegar a todo o lado, nem é sua obrigação, o treinador não é nenhum coitadinho, mas no processo é quem mais dá. Quando o treinador não serve é muito fácil, procura-se outro, agora treinadores que satisfaçam tudo e todos eu não conheço.
Mas o treinador neste momento tem outro problema, adequar-se á realidade atual, onde as crianças não têm tempo para brincar, não tiveram atividade desportiva recreativa e saem das aulas para ali, tem de existir flexibilidade e adequação, salvaguardando sempre que tipo e forma de prática existe em cada clube, porque há clubes para tudo, recreação, competição, agora querer andar na recreação e ser melhor atleta é complicado e querer andar na competição e ir lá para se recrear dificilmente será atleta. Se o ideal será a combinação de tudo, concordo, mas com todas as interferências que existem, dificilmente. 

E é neste marasmo de situações que vivemos e precisamos mudar, talvez na próxima geração, nesta só nos resta tentar.

Hugo Maria - Voleibol