Continuamos muito longe de uma cultura desportiva, visível de forma vertical, onde os valores a incutir por todos junto daqueles que crescem praticando desporto deve ser basilar. Mas a educação desportiva não parte só do papel do treinador pois o papel do treinador dependerá sempre de outros fatores intrínsecos e extrínsecos, nomeadamente dos seus educadores. Se a formação desportiva não for partilhada pelo educador e pelo treinador, a criança/atleta andará no meio de um enleio que na sua cabeça não será percetível nem contribuirá para que o seu desenvolvimento seja o melhor. O desenvolvimento global, eclético e multilateral é reconhecidamente o melhor para cada criança/atleta, mas os princípios da prática desportiva têm de ser reconhecidos e alimentados, correndo-se o risco de não se adequar os princípios à realidade. O facilitismo e a super-proteção com que cada criança/atleta andam não é sinal de ajuda, uma criança tem de perceber o significado de competir, numa tenra idade ou em qualquer outra altura, obviamente que com objetivos e competências diferenciadas, mas é por exemplo preciso desmistificar o que é vencer, o que é competir, é preciso fazer entender que nem todos serão os melhores, nem todos serão campeões, mas todos que competem devem saber e procurar valores que são únicos da competição, para que depois saibam viver com eles. Durante estes anos como professor/treinador das coisas que mais tenho ouvido, é o reconhecimento dos alunos/atletas, pelo facto de eu lhes ter transmitido um conjunto de valores para a vida e para a sua prática desportiva. A assiduidade, a pontualidade, o cumprimento, o empenho, o rigor, a ambição, o espírito de trabalho, de esforço, o querer ser melhor, lutar e por aí fora, têm de fazer parte do processo e não nos podemos demitir deles e devemos ser exemplo, porque em muitos casos e durante o crescimento, este é o único local onde isto pode acontecer, porque o resto ou é virtual ou é facilitado, sendo em muitas coisas atingidos objetivos falseados.
Mas contribui também para esta realidade a dificuldade e a incompreensão dos pais face ao fenómeno desportivo. Os pais que ajudam no processo desportivo são sempre bem vindos e por norma INDISPENSÁVEIS, ainda existem uns quantos, no entanto o problema surge quando alguns não percebem a sua função enquanto pais, no desporto dos seus filhos, a sua “ajuda” não lhes dá aos filhos um estatuto de diferenciação. Os que ajudam não podem ver no seu filho o atleta que eles nunca foram, não pode sofrer por ele, arranjar problemas que para o filho não existem e fazem parte do seu crescimento, porque o solucionar de problemas é um contributo da prática de atividade física organizada, bem como o NÃO e a perceção que nem todos nasceram para serem os melhores e que para se alcançar alguma coisa tem de se trabalhar, conquistar. Mas não é assim no nosso quotidiano, quando chegamos a adultos? Ou formamos as crianças para a utopia de uma vida que não a real?
Então neste momento entramos num embate de ideais, não de ideias. É então que somos TODOS treinadores, coordenadores e diretores, cada um percebe mais e melhor, todos faziam melhor, mas muitas vezes porque as 2h que todos os dias passam na bancada tem de ser preenchida com alguma coisa e mais, as responsabilidades são sempre conectadas com os outros, pois eles sempre cumprem. Muitas vezes o cumprir passa por 20€ ou 25€, verba que na cabeça de muitos paga TUDO (na maioria das vezes nem ajuda para as ajudas de custo do treinador), e permiti-lhes TUDO, alguns nem isso fazem cumprir o que se propuseram e deixando que a sua irresponsabilidade afete aqueles que têm de cumprir, que na maior parte das vezes são aqueles que fazem tudo por carolice e amor aos filhos deles. Alguns, até ajudam, mas os restantes fazem o mais fácil, crítica fácil e destrutiva, pouco se chegam à frente para ajudar, e quando se chegam já se acham num patamar superior onde os outros ficaram em dívida para com eles. É fácil, ver, mandar umas bocas, dar a opinião sem ninguém pedir e em alguns casos exigir.
Se os filhos jogam e não atingem o patamar que idealizam o treinador e o clube são maus, se os filhos jogam, mas não têm a preponderância que eles acham, está mal. Se o objetivo competitivo é prioritário, está mal, se o objetivo educacional está acima de tudo, está mal, resumindo bom bom é o filho jogar sempre e que a equipa ganhe sempre. Mas é o que infelizmente muitas vezes temos, achamos todos, todos percebemos, todos definimos objetivos individuais para as crianças e os coletivos são bons quando as crianças são “campeãs” e enchem o ego dos papás, mas o que importa não é o resultado, nem o imediato, é o processo a médio longo prazo, mas também só há a médio/longo prazo se a curto se perceber.
Mas há melhor ainda, a amiga da amiga faz anos e... falto, há férias, e claro eu falto, há um jantar importantíssimo do XXXX e eu falto, mas depois a menina tem de jogar, como é que o treinador é tão incompreensivo?
Depois o treinador, que durante o processo perde o discernimento e sai do foco definido, é fácil de acontecer, porque aquele que denominam por treinador, é aquele que depois de um dia de trabalho, vai dar treino, que preparou antecipadamente, aquele que acaba o treino, vai para casa e analisa o que fez e o que tem de alterar, é aquele que só com estas tarefas de treinador já o desgastavam o quanto baste, mas depois tem de ainda ajudar no clube, nos problemas das crianças, ouvir os pais, disponibilizar o seu fim de semana. Já pensaram porque é que tão poucos treinadores se mantém no ativo durante muito tempo?
Mas o treinador também erra e é muito fácil errar, nem todos estão disponíveis para chegar a todo o lado, nem é sua obrigação, o treinador não é nenhum coitadinho, mas no processo é quem mais dá. Quando o treinador não serve é muito fácil, procura-se outro, agora treinadores que satisfaçam tudo e todos eu não conheço.
Mas o treinador neste momento tem outro problema, adequar-se á realidade atual, onde as crianças não têm tempo para brincar, não tiveram atividade desportiva recreativa e saem das aulas para ali, tem de existir flexibilidade e adequação, salvaguardando sempre que tipo e forma de prática existe em cada clube, porque há clubes para tudo, recreação, competição, agora querer andar na recreação e ser melhor atleta é complicado e querer andar na competição e ir lá para se recrear dificilmente será atleta. Se o ideal será a combinação de tudo, concordo, mas com todas as interferências que existem, dificilmente.
E é neste marasmo de situações que vivemos e precisamos mudar, talvez na próxima geração, nesta só nos resta tentar.
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