O sucesso escolar é frequentemente medido por notas, aprovações e diplomas. Mas será que esses indicadores realmente definem o que é o sucesso escolar? Acredito que o sucesso escolar vai muito além dessas métricas convencionais.
O sucesso escolar é um processo contínuo de aprendizagem e crescimento, onde cada aluno tem a oportunidade de explorar os seus interesses, desenvolver as suas habilidades e descobrir o seu potencial. O sucesso escolar não é apenas sobre obter boas notas, mas também sobre tornar-se um aprendiz autónomo, um pensador crítico e um cidadão responsável.
O sucesso escolar é também sobre a capacidade de enfrentar desafios, aprender com os erros e persistir diante das adversidades. É sobre a coragem de sair da zona de conforto, a resiliência para superar obstáculos e a determinação para alcançar os objetivos.
A forma como cada aluno lida com os momentos de pressão inerentes ao processo de ensino-aprendizagem, é crucial para mim, pois a vida futura a isso obriga. Sabendo que estes momentos são preparados desde o primeiro dia de aulas do ano letivo, continuo a observar comportamentos variados, o que não me surpreende, pois todos são indivíduos únicos. No entanto, é essencial que cada um dos alunos defina o que é o sucesso, e que o sucesso represente muito mais do que transitar ou reprovar, do que ter positiva ou negativa.
É por isso importante esclarecermos o significado de sucesso, pois acredito que os benefícios de se frequentar a escola são muito maiores, do que se o reduzirmos à simplificação de não transitarmos ou transitarmos. A relação entre sucesso e aprovação e insucesso e reprovação, são demasiado redutores e enganadores, não contribuindo em nada para uma prática académica saudável, contínua e qualificada.
"Sucesso é a consciência tranquila que resulta diretamente da satisfação pessoal em saber que se fez todo o esforço para aprender o máximo possível" - John Wooden
A conceção de sucesso na educação pode ser vista em duas perspetivas, uma normativa, centrada no resultado, onde a educação tem como unidade de medida final, as notas, as aprovações e os diplomas. E uma outra perspetiva criterial, centrada no processo, onde o sucesso pressupõe a atribuição de um valor positivo ao resultado de uma atividade e é sinónimo de êxito, bom resultado, tarefa bem desempenhada. E como eu acredito na máxima de Cervantes "A viagem é melhor que o fim", acredito que se nos centrarmos no processo o resultado será uma consequência.
O sucesso é essencial à motivação, à manutenção do empenho e ao progresso. Nesse sentido, ter positivas e transitar é importante, em todas as disciplinas e em todos os níveis, no entanto quando a unidade de medida são somente estes resultados finais, obviamente que se condiciona a noção de sucesso. Uma ênfase exagerada em ter positivas e transitar pode fazer perder de vista outros objetivos e valores associados à prática educativa. Muitas vezes o foco somente no resultado final é mais evidente em quem ensina do que em quem aprende. Quando os programas de trabalho são fundamentados numa base tão frágil como é a aprovação a todo o custo, não devemos esperar que surjam indivíduos saudáveis e equilibrados.
Nas crianças e jovens, a noção de sucesso tem de ter a ver, em primeiro lugar, com o desenvolvimento progressivo e regular do aluno na execução das tarefas, transcendendo a ideia de notas, aprovações, etc.
O conceito pessoal/individual de sucesso está relacionado com o nível de aspiração ou com o grau de expectativa que um aluno cria para com o desempenho de uma tarefa. Este está diretamente relacionado com a formulação de objetivos realistas. O sucesso dos alunos depende da correta determinação de objetivos individuais em que as metas a atingir sejam realistas, alcançáveis embora exigentes. Objetivos irrealistas provocam atitudes negativas de autoavaliação, com uma prestação inferior às suas potencialidades e o consequente desencorajamento. Muitas crianças perdem o interesse e frustram quando isto acontece. "Quando o sucesso esteve sempre ao seu alcance através de um esforço honesto, processa-se um desenvolvimento natural em que o entusiasmo não é destruído por qualquer ênfase exagerada nem por alturas impossíveis de escalar" (Olímpio Coelho, 1988).
O sucesso envolve claramente a sensação de ser capaz, de conseguir, de ter melhorado. Envolve claramente uma autoimagem e autoestima positiva. Conforme se veem de si mesmos os indivíduos assim mostrarão nas suas ações, atitudes, comportamentos, bem como nas respostas às problemáticas colocadas. Quando os alunos acreditam que tudo vai correr bem as emoções estabilizam em níveis adequados, o sistema percetivo-cinético é afinado para funcionar de forma mais eficaz e cada ação tem lugar no tempo e momento adequado.
As ações dos alunos derivam do seu sistema de valores, os alunos devem ser tolerantes com os seus erros, devem desenvolver atitudes saudáveis perante o sucesso e o insucesso nas aprendizagens. Quando o erro é encarado de forma errada, por exemplo criando pressão sobre o aluno, geralmente conduz à frustração, podendo no limite levar ao abandono precoce da prática educativa.
É muito importante reduzir o medo de falhar dos alunos, esta é uma das maiores preocupações e ameaças para os alunos. “O medo de falhar é um estado antecipatório no qual os alunos pensam sobre as consequências do fracasso” (Birney, Burdick & Teevan, 1969). Este possui uma forte relação com a ansiedade académica, bem como com o perfecionismo.
A gestão das perceções de sucesso é uma competência fundamental, onde a boa gestão do insucesso determina uma melhor e mais rápida correção, menos erros e erros menos graves e uma recuperação mais rápida dos erros. Os insucessos disparam emoções e não considerarmos as emoções pode causar insucessos, pode ser um processo cíclico e de difícil resolução. Os insucessos e erros provocam emoções de irritação, frustração, embaraço, desapontamento, medo, etc.
Neste sentido é crucial refletir sobre as conceções de erro, passamos o nosso quotidiano a centrarmo-nos no negativo e nos erros e muitas vezes desvalorizamos o que realmente interessa. É importante não só prestar atenção aos erros, mas ao modo como olhamos para eles. A verdade é que os erros são situações frequentes.
A ocorrência de erros deve ser vista pelos professores, como oportunidades ricas e indispensáveis para intervirem no processo ensino-aprendizagem e portanto sobre o progresso e melhoria dos alunos. Assim sendo, o erro deve ser entendido como uma oportunidade, um desafio e não uma ameaça. O erro é facilitador da aprendizagem, onde o aluno procura as razões explicativas do erro e as soluções remediativas.
Uma boa gestão dos erros implica que sejam reparados o mais depressa possível, pois os erros por corrigir, tornam-se progressivamente mais difíceis de corrigir, tornam-se mais dispendiosos em termos de tempo e esforço, envolvendo gastos emocionais acrescidos. Nunca nos podemos esquecer que quanto mais se treinam/praticam os erros, mais eles se consolidam e este tipo de consolidação não nos interessa.
O erro na teoria construtiva da aprendizagem, diz que o aluno tem de ser um construtor ativo das suas próprias aprendizagens, onde o aluno tem de ter tempo para pensar/interpretar e espaço para se responsabilizar. Um aluno que aprenda a corrigir-se a si mesmo é um aluno melhor.
Quanto mais ativo é o aluno na interpretação do erro, tanto mais contribui para o corrigir. Para que isso aconteça um conjunto de reflexões devem ser feitas pelo aluno, o aluno deve responsabilizar-se ativamente, pelos seus erros e correções, deve assumir a responsabilidade pelos seus conhecimentos e aprendizagens. As aprendizagens ativas fortalecem a confiança, os sentimentos de controlo, competência e sucesso.
Neste cenário, o feedback surge como o farol que ilumina o caminho para o sucesso educativo. É a bússola que orienta os alunos na sua aprendizagem, permitindo-lhes saber onde estão, para onde estão a ir e como podem melhorar.
A importância do feedback no sucesso educativo não pode ser subestimada. Ele fornece aos alunos uma visão clara das suas forças e áreas de melhoria, incentivando-os a refletir sobre a sua própria aprendizagem e a tomar medidas para melhorar. O feedback eficaz pode aumentar a motivação dos alunos, a melhorar a sua autoconfiança e a promover uma atitude positiva em relação à aprendizagem.
Embora o feedback de resultado possa dar aos alunos uma indicação do seu desempenho geral, não fornece informações suficientes sobre como eles podem melhorar. Por outro lado, o feedback de processo foca-se no próprio processo de aprendizagem, concentra-se em como os alunos estão aprendendo, não apenas no que estão aprendendo. Isso pode incluir feedback sobre como os alunos estão aplicando as estratégias de aprendizagem, como estão pensando sobre os problemas e como estão comportando-se durante o processo.
Promover o feedback de processo significa criar uma cultura de aprendizagem, onde o erro é visto como uma oportunidade de aprendizagem, não como um fracasso. Significa encorajar os alunos a refletir sobre a sua própria aprendizagem e a tomar medidas para melhorar. Significa fornecer feedback contínuo e construtivo que orienta os alunos.
Aplicar o feedback de processo pode envolver uma variedade de estratégias, isso pode incluir discussões individuais com os alunos, comentários escritos em trabalhos de casa, ou até mesmo a utilização de tecnologia para fornecer feedback em tempo real. O objetivo é fornecer aos alunos informações claras, específicas e acionáveis que eles possam usar para melhorar.
Por isso a forma como os alunos são ensinados a valorizar o ensino e a encararem a avaliação e os seus resultados, são aspetos fundamentais da sua formação. Para que sucesso e insucesso convivam e sejam perspetivados de uma maneira saudável, devendo os professores conscientes e responsáveis definir, para os seus alunos, com clareza, as noções e significados de sucesso e insucesso, sejam na simples tarefa, seja num momento formal de avaliação.
Nesse sentido é fundamental explicar que sucesso não é tudo nem a única coisa, se os alunos retirarem satisfação por se relacionarem com os colegas e fizerem amizades, se melhorarem a imagem de si próprios, se melhorarem as suas capacidades e se no futuro continuarem interessados na prática educativa, eu como professor sinto-me bem sucedido. É importante explicar que insucesso na tarefa ou na aprendizagem não constitui obrigatoriamente um fracasso, é preciso fazer entender que o insucesso, não significa uma ameaça ao seu valor pessoal ou que lhe vai ser dado menos valor e atenção pelo facto de não ter conseguido atingir o sucesso. Por outro lado, os “insucessos” devem ser concebidos como acontecimentos que ajudam o aluno a focalizar-se nos objetivos, estes devem ser encarados como indicadores de progresso, como oportunidades que motivam para se fazer melhor. Devem ser encarados como desafios que permitem fomentar o esforço e a autosuperação.
O conceito fundamental que deve ser desenvolvido pelo professor, é que o sucesso se relaciona com o esforço desenvolvido e deve ser interpretado primeiramente como orgulho em cada um fazer o seu melhor, como satisfação por ter realizado uma tarefa proposta, por ter melhorado e progredido.
“Sucesso é a paz de espírito atingida apenas através de autosatisfação, é saber que fizemos o esforço de fazer o melhor de que somos capazes” (John Wooden).
Existem outros fatores que contribuem para o sucesso educativo e que são muito importantes e não podem ser ignorados, um deles é o bem estar dos alunos. Um ambiente de aprendizagem positivo e acolhedor pode aumentar a motivação dos alunos, melhorar a sua autoestima e, consequentemente, melhorar o seu desempenho académico. Portanto, é essencial que as escolas se esforcem para criar um ambiente que promova o bem-estar dos alunos. Isto pode ser alcançado através de uma variedade de métodos, como a implementação de programas de saúde mental, a promoção de atividades extracurriculares e a criação de um ambiente de sala de aula inclusivo e respeitoso.
A motivação dos alunos é outro fator crucial para o sucesso académico. A motivação pode ser intrínseca (motivação que vem de dentro do indivíduo) ou extrínseca (motivação que vem de fora, como notas, aprovações, etc.). Ambos os tipos de motivação são importantes para o sucesso académico. No entanto, das últimas leituras que fiz sugerem que a motivação intrínseca pode ser particularmente benéfica para o desempenho académico a longo prazo. Nesse sentido, os professores devem procurar maneiras de cultivar a motivação intrínseca nos alunos, como permitir a autonomia na aprendizagem, relacionar os conteúdos das disciplinas com os interesses dos alunos e fornecer feedback construtivo.
A minha pesquisa mais recente também sugere que tanto os genes quanto o ambiente familiar desempenham um papel importantíssimo. Por exemplo, o status socioeconómico dos pais pode afetar o acesso a recursos educacionais, enquanto as diferenças genéticas podem influenciar a capacidade de aprendizagem de um indivíduo. No entanto, é importante notar que nem os genes nem o ambiente familiar determinam o sucesso académico de um indivíduo. Em vez disso, eles interagem de maneiras complexas para influenciar o desempenho académico. É então essencial que as escolas e os professores levem em consideração tanto os fatores genéticos quanto ambientais ao desenvolver estratégias de ensino e intervenções educacionais.
O contexto em que o aluno vive tem de ser do conhecimento dos docentes e é um fator que condiciona todo o processo, um professor para desempenhar o seu papel de educador tem de conhecer o contexto e saber chegar à pessoa do aluno, para só depois conseguir intervir no estudante. Estou certo que muitas vezes o insucesso está no desconhecimento da realidade da pessoa do aluno, só partindo deste princípio poderemos intervir no seguinte. Que serve ao emissor debitar conteúdo se o recetor não o ouve, pois, o seu foco está em fatores externos e decisivos na sua vida. A aproximação e a empatia têm de ser mecanismos utilizados pelos docentes para alcançarem os alunos e terem uma intervenção efetiva. Numa grande utopia o desejo é que se chegue a todos e da melhor forma possível, tentando alcançar a maior equidade possível, sabendo que os pontos de partida são muito diferentes. Nesse sentido é preciso ter cuidado com a meritocracia, pois muitas vezes o mérito é medido partindo do princípio que todos partem do mesmo local o que não é verdade. Nunca esquecer que aqueles que partem atrás terão sempre um caminho mais árduo para fazer e que todos as pequenas conquistas muitas vezes são bem maiores que aquilo que aparentam e que estão balizadas por competências e perfis padronizados que não são representativos de todos e onde não se enquadram muitos.
Enfatizo ainda que o sucesso escolar é sobre o desenvolvimento de competências essenciais que são cruciais para a vida além da escola. Competências como a comunicação eficaz, a resolução de problemas, a criatividade, a colaboração e a promoção da inteligência emocional, são tão ou mais importantes quanto o conhecimento académico, estas podem ser alcançadas através de uma variedade de métodos, como a implementação de atividades de aprendizagem baseadas em projetos, a promoção de discussões em sala de aula e a incorporação de tarefas de resolução de problemas no currículo.
O verdadeiro sucesso escolar é uma combinação de realizações académicas, desenvolvimento pessoal e bem-estar. É uma jornada de autodescoberta, crescimento e realização. E é essa a visão de sucesso escolar que devemos promover nas nossas escolas.
Termino, puxando a brasa à minha sardinha e tentando desbloquear muitas vezes aquilo que é problemático no sucesso educativo, falo da importância da Educação Física no sucesso dos alunos.
A Educação Física é muito mais do que apenas uma disciplina escolar, é uma ferramenta poderosa que molda os alunos de maneira holística, preparando-os para o sucesso não apenas na escola, mas também na vida.
Imaginemos um aluno que participa regularmente em atividades físicas, ele não está apenas aprimorando a sua força, flexibilidade, resistência e coordenação motora, mas também está construindo um alicerce sólido para um estilo de vida saudável e ativo. A atividade física regular é uma das melhores maneiras de manter a saúde e o bem-estar, prevenindo uma série de doenças.
Mas a Educação Física vai além do desenvolvimento físico, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento social dos alunos. Através do desporto e dos jogos, eles aprendem a trabalhar em equipa, a cooperar e a resolver conflitos de forma positiva. Eles aprendem a importância de seguir regras, de ser disciplinado e de respeitar os outros. Estas são habilidades valiosas que serão úteis em todas as áreas da vida.
A prática desportiva pode ter um impacto positivo na autoestima e na confiança dos alunos. Ao superar desafios e alcançar metas, eles aprendem a acreditar em si mesmos. A atividade física pode ajudar a melhorar a concentração e o desempenho académico, ao concentrarem-se numa tarefa física, os alunos aprendem a bloquear distrações, o que pode ser útil na sala de aula.
O exercício físico é uma excelente forma de aliviar o stress e a ansiedade. Pode proporcionar uma pausa necessária do trabalho escolar e ajudar os alunos a relaxar e a recarregar as baterias.
Através do desporto, os alunos têm a oportunidade de assumir papéis de liderança. Isto pode ajudá-los a desenvolver habilidades de liderança que serão úteis no futuro.
A Educação Física oferece uma forma de aprendizagem prática que pode complementar a aprendizagem teórica. Os alunos têm a oportunidade de aplicar o que aprenderam de forma prática e tangível. Muitos desportos e jogos requerem que os alunos pensem estrategicamente e tomem decisões rápidas, isto pode ajudar a desenvolver habilidades de resolução de problemas.
Portanto, a educação física não é apenas uma disciplina "extra", é uma parte crucial da educação, que desempenha um papel fundamental na promoção do sucesso educativo. A Educação Física é a chave para desbloquear o potencial total de cada aluno, é a ponte que liga a mente ao corpo, a teoria à prática, o indivíduo à comunidade. É a faísca que acende a paixão pela aprendizagem e a chama que ilumina o caminho para o sucesso. Não podemos nos dar ao luxo de subestimar o seu valor.
Excelente artigo, muito reflexivo e assertivo.
ResponderEliminarMuito obrigado.
EliminarExcelente reflexão sobre o processo de aprendizagem do jovem. Cada vez mais importante preparar o aluno para o futuro, saber selecionar, sabe crescer, quais as informações que devem ser mantidas, ágil a interpretar desde os clássicos ao Twitter. É o mundo da educação corporativa, desenvolvendo o domínio de diversas áreas para se fazer um crescimento e uma base cada vez maior de conhecimento e de reinvenção. Continuar a aprender e ser capaz de continuamente melhorar! Este vai ser o grande desafio para uma sociedade de futuro! Este é o desafio do mundo contemporâneo!
ResponderEliminarMuito Obrigado Célia.
ResponderEliminarAprender, adaptar, crescer, reinventar, tudo grandes desafios futuros.
Excelente texto de grande reflexão
ResponderEliminarMuito Obrigado
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