terça-feira, 2 de abril de 2024

O “Sucesso” no Contexto Escolar


O sucesso escolar é frequentemente medido por notas, aprovações e diplomas. Mas será que esses indicadores realmente definem o que é o sucesso escolar? Acredito que o sucesso escolar vai muito além dessas métricas convencionais.

O sucesso escolar é um processo contínuo de aprendizagem e crescimento, onde cada aluno tem a oportunidade de explorar os seus interesses, desenvolver as suas habilidades e descobrir o seu potencial. O sucesso escolar não é apenas sobre obter boas notas, mas também sobre tornar-se um aprendiz autónomo, um pensador crítico e um cidadão responsável.

O sucesso escolar é também sobre a capacidade de enfrentar desafios, aprender com os erros e persistir diante das adversidades. É sobre a coragem de sair da zona de conforto, a resiliência para superar obstáculos e a determinação para alcançar os objetivos.

A forma como cada aluno lida com os momentos de pressão inerentes ao processo de ensino-aprendizagem, é crucial para mim, pois a vida futura a isso obriga. Sabendo que estes momentos são preparados desde o primeiro dia de aulas do ano letivo, continuo a observar comportamentos variados, o que não me surpreende, pois todos são indivíduos únicos. No entanto, é essencial que cada um dos alunos defina o que é o sucesso, e que o sucesso represente muito mais do que transitar ou reprovar, do que ter positiva ou negativa.

É por isso importante esclarecermos o significado de sucesso, pois acredito que os benefícios de se frequentar a escola são muito maiores, do que se o reduzirmos à simplificação de não transitarmos ou transitarmos. A relação entre sucesso e aprovação e insucesso e reprovação, são demasiado redutores e enganadores, não contribuindo em nada para uma prática académica saudável, contínua e qualificada.

 

"Sucesso é a consciência tranquila que resulta diretamente da satisfação pessoal em saber que se fez todo o esforço para aprender o máximo possível" - John Wooden

 

A conceção de sucesso na educação pode ser vista em duas perspetivas, uma normativa, centrada no resultado, onde a educação tem como unidade de medida final, as notas, as aprovações e os diplomas. E uma outra perspetiva criterial, centrada no processo, onde o sucesso pressupõe a atribuição de um valor positivo ao resultado de uma atividade e é sinónimo de êxito, bom resultado, tarefa bem desempenhada. E como eu acredito na máxima de Cervantes "A viagem é melhor que o fim", acredito que se nos centrarmos no processo o resultado será uma consequência.

O sucesso é essencial à motivação, à manutenção do empenho e ao progresso. Nesse sentido, ter positivas e transitar é importante, em todas as disciplinas e em todos os níveis, no entanto quando a unidade de medida são somente estes resultados finais, obviamente que se condiciona a noção de sucesso. Uma ênfase exagerada em ter positivas e transitar pode fazer perder de vista outros objetivos e valores associados à prática educativa. Muitas vezes o foco somente no resultado final é mais evidente em quem ensina do que em quem aprende. Quando os programas de trabalho são fundamentados numa base tão frágil como é a aprovação a todo o custo, não devemos esperar que surjam indivíduos saudáveis e equilibrados.

Nas crianças e jovens, a noção de sucesso tem de ter a ver, em primeiro lugar, com o desenvolvimento progressivo e regular do aluno na execução das tarefas, transcendendo a ideia de notas, aprovações, etc.

O conceito pessoal/individual de sucesso está relacionado com o nível de aspiração ou com o grau de expectativa que um aluno cria para com o desempenho de uma tarefa. Este está diretamente relacionado com a formulação de objetivos realistas. O sucesso dos alunos depende da correta determinação de objetivos individuais em que as metas a atingir sejam realistas, alcançáveis embora exigentes. Objetivos irrealistas provocam atitudes negativas de autoavaliação, com uma prestação inferior às suas potencialidades e o consequente desencorajamento. Muitas crianças perdem o interesse e frustram quando isto acontece. "Quando o sucesso esteve sempre ao seu alcance através de um esforço honesto, processa-se um desenvolvimento natural em que o entusiasmo não é destruído por qualquer ênfase exagerada nem por alturas impossíveis de escalar" (Olímpio Coelho, 1988).

O sucesso envolve claramente a sensação de ser capaz, de conseguir, de ter melhorado. Envolve claramente uma autoimagem e autoestima positiva. Conforme se veem de si mesmos os indivíduos assim mostrarão nas suas ações, atitudes, comportamentos, bem como nas respostas às problemáticas colocadas. Quando os alunos acreditam que tudo vai correr bem as emoções estabilizam em níveis adequados, o sistema percetivo-cinético é afinado para funcionar de forma mais eficaz e cada ação tem lugar no tempo e momento adequado.

As ações dos alunos derivam do seu sistema de valores, os alunos devem ser tolerantes com os seus erros, devem desenvolver atitudes saudáveis perante o sucesso e o insucesso nas aprendizagens. Quando o erro é encarado de forma errada, por exemplo criando pressão sobre o aluno, geralmente conduz à frustração, podendo no limite levar ao abandono precoce da prática educativa.

É muito importante reduzir o medo de falhar dos alunos, esta é uma das maiores preocupações e ameaças para os alunos. “O medo de falhar é um estado antecipatório no qual os alunos pensam sobre as consequências do fracasso” (Birney, Burdick & Teevan, 1969). Este possui uma forte relação com a ansiedade académica, bem como com o perfecionismo.

A gestão das perceções de sucesso é uma competência fundamental, onde a boa gestão do insucesso determina uma melhor e mais rápida correção, menos erros e erros menos graves e uma recuperação mais rápida dos erros. Os insucessos disparam emoções e não considerarmos as emoções pode causar insucessos, pode ser um processo cíclico e de difícil resolução. Os insucessos e erros provocam emoções de irritação, frustração, embaraço, desapontamento, medo, etc.

Neste sentido é crucial refletir sobre as conceções de erro, passamos o nosso quotidiano a centrarmo-nos no negativo e nos erros e muitas vezes desvalorizamos o que realmente interessa. É importante não só prestar atenção aos erros, mas ao modo como olhamos para eles. A verdade é que os erros são situações frequentes.

A ocorrência de erros deve ser vista pelos professores, como oportunidades ricas e indispensáveis para intervirem no processo ensino-aprendizagem e portanto sobre o progresso e melhoria dos alunos. Assim sendo, o erro deve ser entendido como uma oportunidade, um desafio e não uma ameaça. O erro é facilitador da aprendizagem, onde o aluno procura as razões explicativas do erro e as soluções remediativas.

Uma boa gestão dos erros implica que sejam reparados o mais depressa possível, pois os erros por corrigir, tornam-se progressivamente mais difíceis de corrigir, tornam-se mais dispendiosos em termos de tempo e esforço, envolvendo gastos emocionais acrescidos. Nunca nos podemos esquecer que quanto mais se treinam/praticam os erros, mais eles se consolidam e este tipo de consolidação não nos interessa.

O erro na teoria construtiva da aprendizagem, diz que o aluno tem de ser um construtor ativo das suas próprias aprendizagens, onde o aluno tem de ter tempo para pensar/interpretar e espaço para se responsabilizar. Um aluno que aprenda a corrigir-se a si mesmo é um aluno melhor.

Quanto mais ativo é o aluno na interpretação do erro, tanto mais contribui para o corrigir. Para que isso aconteça um conjunto de reflexões devem ser feitas pelo aluno, o aluno deve responsabilizar-se ativamente, pelos seus erros e correções, deve assumir a responsabilidade pelos seus conhecimentos e aprendizagens. As aprendizagens ativas fortalecem a confiança, os sentimentos de controlo, competência e sucesso.

Neste cenário, o feedback surge como o farol que ilumina o caminho para o sucesso educativo. É a bússola que orienta os alunos na sua aprendizagem, permitindo-lhes saber onde estão, para onde estão a ir e como podem melhorar.

A importância do feedback no sucesso educativo não pode ser subestimada. Ele fornece aos alunos uma visão clara das suas forças e áreas de melhoria, incentivando-os a refletir sobre a sua própria aprendizagem e a tomar medidas para melhorar. O feedback eficaz pode aumentar a motivação dos alunos, a melhorar a sua autoconfiança e a promover uma atitude positiva em relação à aprendizagem.

Embora o feedback de resultado possa dar aos alunos uma indicação do seu desempenho geral, não fornece informações suficientes sobre como eles podem melhorar. Por outro lado, o feedback de processo foca-se no próprio processo de aprendizagem, concentra-se em como os alunos estão aprendendo, não apenas no que estão aprendendo. Isso pode incluir feedback sobre como os alunos estão aplicando as estratégias de aprendizagem, como estão pensando sobre os problemas e como estão comportando-se durante o processo.

Promover o feedback de processo significa criar uma cultura de aprendizagem, onde o erro é visto como uma oportunidade de aprendizagem, não como um fracasso. Significa encorajar os alunos a refletir sobre a sua própria aprendizagem e a tomar medidas para melhorar. Significa fornecer feedback contínuo e construtivo que orienta os alunos.

Aplicar o feedback de processo pode envolver uma variedade de estratégias, isso pode incluir discussões individuais com os alunos, comentários escritos em trabalhos de casa, ou até mesmo a utilização de tecnologia para fornecer feedback em tempo real. O objetivo é fornecer aos alunos informações claras, específicas e acionáveis que eles possam usar para melhorar.

Por isso a forma como os alunos são ensinados a valorizar o ensino e a encararem a avaliação e os seus resultados, são aspetos fundamentais da sua formação. Para que sucesso e insucesso convivam e sejam perspetivados de uma maneira saudável, devendo os professores conscientes e responsáveis definir, para os seus alunos, com clareza, as noções e significados de sucesso e insucesso, sejam na simples tarefa, seja num momento formal de avaliação.

Nesse sentido é fundamental explicar que sucesso não é tudo nem a única coisa, se os alunos retirarem satisfação por se relacionarem com os colegas e fizerem amizades, se melhorarem a imagem de si próprios, se melhorarem as suas capacidades e se no futuro continuarem interessados na prática educativa, eu como professor sinto-me bem sucedido. É importante explicar que insucesso na tarefa ou na aprendizagem não constitui obrigatoriamente um fracasso, é preciso fazer entender que o insucesso, não significa uma ameaça ao seu valor pessoal ou que lhe vai ser dado menos valor e atenção pelo facto de não ter conseguido atingir o sucesso. Por outro lado, os “insucessos” devem ser concebidos como acontecimentos que ajudam o aluno a focalizar-se nos objetivos, estes devem ser encarados como indicadores de progresso, como oportunidades que motivam para se fazer melhor. Devem ser encarados como desafios que permitem fomentar o esforço e a autosuperação.

O conceito fundamental que deve ser desenvolvido pelo professor, é que o sucesso se relaciona com o esforço desenvolvido e deve ser interpretado primeiramente como orgulho em cada um fazer o seu melhor, como satisfação por ter realizado uma tarefa proposta, por ter melhorado e progredido.

 

“Sucesso é a paz de espírito atingida apenas através de autosatisfação, é saber que fizemos o esforço de fazer o melhor de que somos capazes” (John Wooden).

 

Existem outros fatores que contribuem para o sucesso educativo e que são muito importantes e não podem ser ignorados, um deles é o bem estar dos alunos. Um ambiente de aprendizagem positivo e acolhedor pode aumentar a motivação dos alunos, melhorar a sua autoestima e, consequentemente, melhorar o seu desempenho académico. Portanto, é essencial que as escolas se esforcem para criar um ambiente que promova o bem-estar dos alunos. Isto pode ser alcançado através de uma variedade de métodos, como a implementação de programas de saúde mental, a promoção de atividades extracurriculares e a criação de um ambiente de sala de aula inclusivo e respeitoso.

A motivação dos alunos é outro fator crucial para o sucesso académico. A motivação pode ser intrínseca (motivação que vem de dentro do indivíduo) ou extrínseca (motivação que vem de fora, como notas, aprovações, etc.). Ambos os tipos de motivação são importantes para o sucesso académico. No entanto, das últimas leituras que fiz sugerem que a motivação intrínseca pode ser particularmente benéfica para o desempenho académico a longo prazo. Nesse sentido, os professores devem procurar maneiras de cultivar a motivação intrínseca nos alunos, como permitir a autonomia na aprendizagem, relacionar os conteúdos das disciplinas com os interesses dos alunos e fornecer feedback construtivo.

A minha pesquisa mais recente também sugere que tanto os genes quanto o ambiente familiar desempenham um papel importantíssimo. Por exemplo, o status socioeconómico dos pais pode afetar o acesso a recursos educacionais, enquanto as diferenças genéticas podem influenciar a capacidade de aprendizagem de um indivíduo. No entanto, é importante notar que nem os genes nem o ambiente familiar determinam o sucesso académico de um indivíduo. Em vez disso, eles interagem de maneiras complexas para influenciar o desempenho académico. É então essencial que as escolas e os professores levem em consideração tanto os fatores genéticos quanto ambientais ao desenvolver estratégias de ensino e intervenções educacionais.

O contexto em que o aluno vive tem de ser do conhecimento dos docentes e é um fator que condiciona todo o processo, um professor para desempenhar o seu papel de educador tem de conhecer o contexto e saber chegar à pessoa do aluno, para só depois conseguir intervir no estudante. Estou certo que muitas vezes o insucesso está no desconhecimento da realidade da pessoa do aluno, só partindo deste princípio poderemos intervir no seguinte. Que serve ao emissor debitar conteúdo se o recetor não o ouve, pois, o seu foco está em fatores externos e decisivos na sua vida. A aproximação e a empatia têm de ser mecanismos utilizados pelos docentes para alcançarem os alunos e terem uma intervenção efetiva. Numa grande utopia o desejo é que se chegue a todos e da melhor forma possível, tentando alcançar a maior equidade possível, sabendo que os pontos de partida são muito diferentes. Nesse sentido é preciso ter cuidado com a meritocracia, pois muitas vezes o mérito é medido partindo do princípio que todos partem do mesmo local o que não é verdade. Nunca esquecer que aqueles que partem atrás terão sempre um caminho mais árduo para fazer e que todos as pequenas conquistas muitas vezes são bem maiores que aquilo que aparentam e que estão balizadas por competências e perfis padronizados que não são representativos de todos e onde não se enquadram muitos.

Enfatizo ainda que o sucesso escolar é sobre o desenvolvimento de competências essenciais que são cruciais para a vida além da escola. Competências como a comunicação eficaz, a resolução de problemas, a criatividade, a colaboração e a promoção da inteligência emocional, são tão ou mais importantes quanto o conhecimento académico, estas podem ser alcançadas através de uma variedade de métodos, como a implementação de atividades de aprendizagem baseadas em projetos, a promoção de discussões em sala de aula e a incorporação de tarefas de resolução de problemas no currículo.

O verdadeiro sucesso escolar é uma combinação de realizações académicas, desenvolvimento pessoal e bem-estar. É uma jornada de autodescoberta, crescimento e realização. E é essa a visão de sucesso escolar que devemos promover nas nossas escolas.

Termino, puxando a brasa à minha sardinha e tentando desbloquear muitas vezes aquilo que é problemático no sucesso educativo, falo da importância da Educação Física no sucesso dos alunos.

A Educação Física é muito mais do que apenas uma disciplina escolar, é uma ferramenta poderosa que molda os alunos de maneira holística, preparando-os para o sucesso não apenas na escola, mas também na vida.

Imaginemos um aluno que participa regularmente em atividades físicas, ele não está apenas aprimorando a sua força, flexibilidade, resistência e coordenação motora, mas também está construindo um alicerce sólido para um estilo de vida saudável e ativo. A atividade física regular é uma das melhores maneiras de manter a saúde e o bem-estar, prevenindo uma série de doenças.

Mas a Educação Física vai além do desenvolvimento físico, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento social dos alunos. Através do desporto e dos jogos, eles aprendem a trabalhar em equipa, a cooperar e a resolver conflitos de forma positiva. Eles aprendem a importância de seguir regras, de ser disciplinado e de respeitar os outros. Estas são habilidades valiosas que serão úteis em todas as áreas da vida.

A prática desportiva pode ter um impacto positivo na autoestima e na confiança dos alunos. Ao superar desafios e alcançar metas, eles aprendem a acreditar em si mesmos. A atividade física pode ajudar a melhorar a concentração e o desempenho académico,  ao concentrarem-se numa tarefa física, os alunos aprendem a bloquear distrações, o que pode ser útil na sala de aula.

O exercício físico é uma excelente forma de aliviar o stress e a ansiedade. Pode proporcionar uma pausa necessária do trabalho escolar e ajudar os alunos a relaxar e a recarregar as baterias.

 Através do desporto, os alunos têm a oportunidade de assumir papéis de liderança. Isto pode ajudá-los a desenvolver habilidades de liderança que serão úteis no futuro.

A Educação Física oferece uma forma de aprendizagem prática que pode complementar a aprendizagem teórica. Os alunos têm a oportunidade de aplicar o que aprenderam de forma prática e tangível. Muitos desportos e jogos requerem que os alunos pensem estrategicamente e tomem decisões rápidas, isto pode ajudar a desenvolver habilidades de resolução de problemas.

Portanto, a educação física não é apenas uma disciplina "extra", é uma parte crucial da educação, que desempenha um papel fundamental na promoção do sucesso educativo. A Educação Física é a chave para desbloquear o potencial total de cada aluno, é a ponte que liga a mente ao corpo, a teoria à prática, o indivíduo à comunidade. É a faísca que acende a paixão pela aprendizagem e a chama que ilumina o caminho para o sucesso. Não podemos nos dar ao luxo de subestimar o seu valor.


segunda-feira, 17 de julho de 2023

Por muito que vivas em sociedade naturalmente estás ALONE

Em muitos momentos da vida estamos sós, muitos mesmo. Podemos ter uma grande família, muito coesa, uma vida muito bem resolvida, tudo no sentido positivo, mas sempre sós.
Tudo o que fazemos, depende de uma decisão nossa, somos nós que nos alimentamos a todos os níveis e sós decidimos.
Podemos muitas vezes ter opiniões de outros, podemos muitas vezes valorizar as mesmas, mas sós decidiremos o que fazer, se concordamos, se queremos seguir aquela linha.
Em tudo o eu, o só, prevalece, o só, tem o poder de ser ele a mandar, de ser ele a sentir.
E o que sente o só, nunca ninguém sabe, podemos transmitir uma coisa, mas sentirmos outra e quem realmente sabe é o só.
Sozinhos caminhamos, sozinhos nos vestimos, sozinhos somos preparados toda a vida, sozinhos olhamos para o fim da caminhada.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Atividade Física em Casa



Nos dias que correm, tem sido óbvio a necessidade e a procura de estratégias para colmatar a inatividade física. 
É para mim claramente visível uma mudança cultural dos hábitos dos Portugueses, ao nível da prática de atividade física regular, sendo esta mais visível na última década. 
Passou-se a ter mais informação e a atribuir um maior e mais correto significado à importância da prática física regular. 
O trabalho realizado nas escolas, nos ginásios e afins têm-se demonstrado preponderante para esta aquisição de hábitos, fundamentais à nossa Saúde.

Hoje falo aqui como um mero leigo, somente a opinião de um professor e treinador, como se fosse um médico de família a falar de uma especialização, mesmo correndo o risco de dizer umas asneiras, sinto a necessidade de alertar e balizar algumas coisas gerais.

Tenho visto com alguma preocupação a quantidade de momentos partilhados na internet envolvendo a atividade física, alguns realizados por leigos, outros por atletas, outros por profissionais da atividade física e saúde, realizado muitas vezes de forma irresponsável, sendo na maioria das vezes para todos, sem respeitar muitos dos princípios do treino e não tendo em conta muitas vezes a especificidade de cada pessoa que realiza as atividades propostas.
Muitas vezes é apresentado sem se fazer ao recetor qualquer diagnóstico, enquadramento e avaliação. Atividade Física realizada em pacotes, sem qualquer acompanhamento, sem qualquer perceção do certo e errado.
Não estou a querer dizer com isto que não devemos realizar atividade física neste nosso contexto de quarentena, pelo contrário, mas devemos todos ter a noção daquilo que nos propomos fazer, pois em vez de tirarmos benefícios, podemos estar claramente a criar problemas que podem ser perigosos a curto, médio e longo prazo.

A maior parte de nós sabe que “A atividade física tem um papel muito importante na gestão do stress, na promoção de um sono mais tranquilo, na libertação de endorfinas e promoção de emoções positivas e, portanto, é agora mais do que nunca fundamental”. (Marlene Silva).

Atualmente, em tempo de pandemia e que nos leva ao confinamento e ao teletrabalho em casa, é um momento de risco de inatividade física e, consequentemente, o sedentarismo tende a aumentar, assim como os níveis de ansiedade e de preocupação. É fundamental praticarmos exercício físico tendo em conta o seu contributo na manutenção da saúde física e mental dos cidadãos.
A Direção-Geral de Saúde informa que devemos praticar “atividade física de intensidade pelo menos moderada”, durante cerca de 30 minutos, por dia.
Agora, mais do que nunca, devemos criar estratégias para interromper o nosso comportamento sedentário, como por exemplo, de 30 em 30 minutos levantarmo-nos e darmos umas passadas dentro da nossa casa. Criar o hábito de, diariamente, fazermos atividade física de intensidade moderada durante cerca de 30 minutos. 
“Esta intensidade deve ser adaptada à condição física de cada um, com o foco dos treinos devendo ser, o estabelecimento e/ou a manutenção de uma boa “condição física geral”. 
Ou seja, deve-se treinar, mas fazê-lo de forma adaptada à nossa condição física e sem exageros. A ideia fundamental é manter a saúde...” (Rodrigo Ruivo).

Nesse sentido a atividade física deve começar de forma gradual, com baixa intensidade, pressupondo sempre um aquecimento geral. 
Os exercícios devem ser o mais globais possível, passando por todas as grandes estruturas musculares do corpo e tendo em conta que pelo facto de passarmos mais tempo sentados, os glúteos, abdominais, região lombar e ombros são zonas que não devemos nunca esquecer de exercitar. 
A gestão autonoma de volume e intensidade dos exercícios tem de ser muito bem ponderada.
E será que não podemos simplificar e trabalhar na mesma? 
Por exemplo, podemos sempre andar pela casa, instalar um pedómetro digital e contabilizar o nosso número de passos, podemos sempre aproveitar para dançar, e aproveitar para utilizar as atividades domésticas para realizar atividade física. 

Obviamente que quem tem um personal trainer está devidamente acompanhado, bem como aqueles que são na realidade atletas e que sabem adequar as suas necessidades à correta realização da atividade física em contexto de casa. O problema para mim coloca-se em relação à grande maioria que não sabe. Não sabendo e devendo fazer, deve, no meu humilde entender realizar o mais simples, o mais global e de forma a que se sinta bem. Muitas vezes a cópia não é ajustada, pelo contrário é contraproducente. 
Fica aqui uma opinião, não se chateiem comigo, que eu só queria ajudar.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Obrigado pai e mãe pela educação que me deram

Percorro mil e um caminhos para tentar arranjar justificação para muitos comportamentos que assisto diariamente e volto sempre ao ponto de partida e à única justificação que considero plausível. A educação que nos foi dada pelos nossos pais é ela que nos deixa os valores, princípios e caminho que seguiremos a vida toda.
Nunca nos faltou nada, mas nunca ninguém esbanjou, nunca ninguém mostrou mais do que era e tinha, sempre cresci a ver muita humildade, trabalho e valorização do que se conquistava e ganhava e foi assim que cresci.
Minha mãe criou 3 rapazes, muitas vezes só, tratou-nos como ninguém, ainda hoje vive para o nosso bem estar diário. Meu pai trabalhou uma vida inteira, tubista, construiu silos pelo mundo fora, trabalhava seguidos 24h,48h,72h, passava meses e meses sem nos ver, anos atrás de anos, enquanto não terminasse as suas obrigações não descansava, enquanto não terminasse o último projeto não parava, nunca virou as costas a uma obra e quantas e quantas davam problemas. 
Vida dura, trabalhei um mês com ele e serviu para lhe dar mais valor ainda e para saber que aquilo não podia ser para mim. Perdeu muitos momentos importantes dos filhos, mas os filhos sempre perceberam o porquê.
Aprendemos vendo com o exemplo que nos deram, não me lembro de dias sem trabalhar em casa, muitos anos sem férias de família, muita humildade e honra. Nas obras aprende-se muito, aprendesse a lidar com aqueles que lutam todos os dias para levar alguma coisa para casa, que dão tudo, ali quem é que vira as costas? Não podem, senão não comem. Ali quando corre mal resolve-se rápido.
Mas há palavra, há honra, cumpre-se e assume-se.
Crescemos junto de quem mais necessitava, aprendemos a partilhar, a respeitar e a lutar, fosse quem fosse, vimos o que queríamos e o que não queríamos na rua, soubemos ser orientados e escolher o nosso caminho. Minha avó ainda hoje, mesmo vendo muito pouco sai à rua, vai às compras e todos os dias deixa mais do que um saco à porta das vizinhas que precisam.
E foi e é com os exemplos que a minha vida toda fui criado que hoje me deixam revoltado, que hoje não me deixam desistir e que hoje me obrigam a intervir. Vejo hoje a uma velocidade alucinante o declínio da humanidade, à uns anos dizia que era um vazio de valores, mas estamos já muito mais à frente. Não vamos conseguir viver em sociedade mais do que 100 anos e estou a ser otimista, poderei noutra ocasião justificar, mas hoje digo que sem educação não vamos continuar. Até 2008, aquilo que mais me fez pensar se queria ser pai era isto, esta desvalorização dos princípios fundamentais de vida, ninguém quer saber de ninguém, de nada, vale tudo, tudo é permitido, não há regras, não há autoridade, não há objetivos e onde a forma de vida se denomina de lassidão. 
E é um problema ainda maior quando tu vives todos os minutos esta situação, quando dás aulas, quando dás treinos, quando pensas que podes ajudar a formar melhores pessoas e melhores atletas e quando os atropelos se sobrepõem a tudo isto. Tudo é normal, tudo é explicável e tudo é grave quando tentas fazer aquilo que te compete, quer dizer, que antes tu achavas que competia, porque as dúvidas são mais que muitas neste momento. 
Todos os dias vemos e somos intervenientes ativos nesta pouca vergonha, acendemos a televisão e comemos a porcaria que somos, os coniventes com uma saúde, educação, justiça que nos deixam perder o pouco que ainda nos segurava, a dignidade. 
Tudo o que era negócio, bastava a palavra para se concretizar, hoje basta a palavra para se mandar abaixo o que os outros constroem e lutam. 
Vou bater-me sempre pelo respeito, mas não sei se vou conseguir, olho para o lado e a fila de desistentes é enorme, empurram-me para entrar nessa fila, não sei se vou ficar na minha fila.
De uma coisa eu sei, aos 40 anos, sobra-me o orgulho, pelos valores que me transmitiram, e pela luta que tenho para os transmitir, ajudar só a quem pedir, porque isto reverte-se facilmente e tu ajudas e ainda tens tu o dever de agradecer, porque o menino e a menina têm sempre razão.
Termino com o meu pensamento do dia, gozem a vida, porque senão alguém goza com a tua.
Obrigado aos meus pais por me educarem, no meu entender bem, mas acho que até eles já não sabem se bem ou mal, com o que assistem todos os dias.


sábado, 25 de março de 2017

A Cultura desportiva, os pais e treinadores

Continuamos muito longe de uma cultura desportiva, visível de forma vertical, onde os valores a incutir por todos junto daqueles que crescem praticando desporto deve ser basilar. Mas a educação desportiva não parte só do papel do treinador pois o papel do treinador dependerá sempre de outros fatores intrínsecos e extrínsecos, nomeadamente dos seus educadores. Se a formação desportiva não for partilhada pelo educador e pelo treinador, a criança/atleta andará no meio de um enleio que na sua cabeça não será percetível nem contribuirá para que o seu desenvolvimento seja o melhor. O desenvolvimento global, eclético e multilateral é reconhecidamente o melhor para cada criança/atleta, mas os princípios da prática desportiva têm de ser reconhecidos e alimentados, correndo-se o risco de não se adequar os princípios à realidade. O facilitismo e a super-proteção com que cada criança/atleta andam não é sinal de ajuda, uma criança tem de perceber o significado de competir, numa tenra idade ou em qualquer outra altura, obviamente que com objetivos e competências diferenciadas, mas é por exemplo preciso desmistificar o que é vencer, o que é competir, é preciso fazer entender que nem todos serão os melhores, nem todos serão campeões, mas todos que competem devem saber e procurar valores que são únicos da competição, para que depois saibam viver com eles. Durante estes anos como professor/treinador das coisas que mais tenho ouvido, é o reconhecimento dos alunos/atletas, pelo facto de eu lhes ter transmitido um conjunto de valores para a vida e para a sua prática desportiva. A assiduidade,  a pontualidade, o cumprimento, o empenho, o rigor, a ambição, o espírito de trabalho, de esforço, o querer ser melhor, lutar e por aí fora, têm de fazer parte do processo e não nos podemos demitir deles e devemos ser exemplo, porque em muitos casos e durante o crescimento, este é o único local onde isto pode acontecer, porque o resto ou é virtual ou é facilitado, sendo em muitas coisas atingidos objetivos falseados. 
Mas contribui também para esta realidade a dificuldade e a incompreensão dos pais face ao fenómeno desportivo. Os pais que ajudam no processo desportivo são sempre bem vindos e por norma INDISPENSÁVEIS, ainda existem uns quantos, no entanto o problema surge quando alguns não percebem a sua função enquanto pais, no desporto dos seus filhos, a sua “ajuda” não lhes dá aos filhos um estatuto de diferenciação. Os que ajudam não podem ver no seu filho o atleta que eles nunca foram, não pode sofrer por ele, arranjar problemas que para o filho não existem e fazem parte do seu crescimento, porque o solucionar de problemas é um contributo da prática de atividade física organizada, bem como o NÃO e a perceção que nem todos nasceram para serem os melhores e que para se alcançar alguma coisa tem de se trabalhar, conquistar. Mas não é assim no nosso quotidiano, quando chegamos a adultos? Ou formamos as crianças para a utopia de uma vida que não a real?
Então neste momento entramos num embate de ideais, não de ideias. É então que somos TODOS treinadores, coordenadores e diretores, cada um percebe mais e melhor, todos faziam melhor, mas muitas vezes porque as 2h que todos os dias passam na bancada tem de ser preenchida com alguma coisa e mais, as responsabilidades são sempre conectadas com os outros, pois eles sempre cumprem. Muitas vezes o cumprir passa por 20€ ou 25€, verba que na cabeça de muitos paga TUDO (na maioria das vezes nem ajuda para as ajudas de custo do treinador), e permiti-lhes TUDO, alguns nem isso fazem cumprir o que se propuseram e deixando que a sua irresponsabilidade afete aqueles que têm de cumprir, que na maior parte das vezes são aqueles que fazem tudo por carolice e amor aos filhos deles. Alguns, até ajudam, mas os restantes fazem o mais fácil, crítica fácil e destrutiva, pouco se chegam à frente para ajudar, e quando se chegam já se acham num patamar superior onde os outros ficaram em dívida para com eles. É fácil, ver, mandar umas bocas, dar a opinião sem ninguém pedir e em alguns casos exigir. 
Se os filhos jogam e não atingem o patamar que idealizam o treinador e o clube são maus, se os filhos jogam, mas não têm a preponderância que eles acham, está mal. Se o objetivo competitivo é prioritário, está mal, se o objetivo educacional está acima de tudo, está mal, resumindo bom bom é o filho jogar sempre e que a equipa ganhe sempre. Mas é o que infelizmente muitas vezes temos, achamos todos, todos percebemos, todos definimos objetivos individuais para as crianças e os coletivos são bons quando as crianças são “campeãs” e enchem o ego dos papás, mas o que importa não é o resultado, nem o imediato, é o processo a médio longo prazo, mas também só há a médio/longo prazo se a curto se perceber. 
Mas há melhor ainda, a amiga da amiga faz anos e... falto, há férias, e claro eu falto, há um jantar importantíssimo do XXXX e eu falto, mas depois a menina tem de jogar, como é que o treinador é tão incompreensivo? 
Depois o treinador, que durante o processo perde o discernimento e sai do foco definido, é fácil de acontecer, porque aquele que denominam por treinador, é aquele que depois de um dia de trabalho, vai dar treino, que preparou antecipadamente, aquele que acaba o treino, vai para casa e analisa o que fez e o que tem de alterar, é aquele que só com estas tarefas de treinador já o desgastavam o quanto baste, mas depois tem de ainda ajudar no clube, nos problemas das crianças, ouvir os pais, disponibilizar o seu fim de semana. Já pensaram porque é que tão poucos treinadores se mantém no ativo durante muito tempo? 
Mas o treinador também erra e é muito fácil errar, nem todos estão disponíveis para chegar a todo o lado, nem é sua obrigação, o treinador não é nenhum coitadinho, mas no processo é quem mais dá. Quando o treinador não serve é muito fácil, procura-se outro, agora treinadores que satisfaçam tudo e todos eu não conheço.
Mas o treinador neste momento tem outro problema, adequar-se á realidade atual, onde as crianças não têm tempo para brincar, não tiveram atividade desportiva recreativa e saem das aulas para ali, tem de existir flexibilidade e adequação, salvaguardando sempre que tipo e forma de prática existe em cada clube, porque há clubes para tudo, recreação, competição, agora querer andar na recreação e ser melhor atleta é complicado e querer andar na competição e ir lá para se recrear dificilmente será atleta. Se o ideal será a combinação de tudo, concordo, mas com todas as interferências que existem, dificilmente. 

E é neste marasmo de situações que vivemos e precisamos mudar, talvez na próxima geração, nesta só nos resta tentar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Comparativo


No meio do egocentrismo prevalece sempre o comparativo, porque está incutido na sociedade a necessidade de nos compararmos uns com os outros. Em tudo quando se compara torna-se um partido/lado.
O comparativo muitas vezes faz com que a avaliação e o rigor da analise seja turva, comparando, e onde os menos ou piores são ainda mais prejudicados.
Quando comparamos ações estas são muitas vezes de fácil decisão e de visibilidade significativa, muitas vezes na comparação das ações juntamos aquilo que defendemos e a personalidade que nos define, sendo muitas vezes o “eu” o termo comparativo.
Quando comparamos sentimentos aqui tudo é muito mais difícil, pois as marcas ficam e a comparação é sempre feita com aquilo que gostamos/gostámos/gostávamos e sentimos.
Comparamos neste momento quase tudo, comparamos desempenhos, formas de vida, comparamo-nos com o vizinho, com o colega do trabalho. O nosso quotidiano é feito de comparações, vamos ao supermercado e comparamos preços, qualidade dos produtos, produtos, tudo é comparável.
Mas só temos muitas vezes comparação porque existem opções para compararmos precisamos de mais do que um/uma, se nunca existir mais de um nunca poderemos comparar.
Associado a esta comparação vem a critica, é muito mais fácil criticar e argumentar quando temos comparação. Muitas vezes sem termos argumentos a própria comparação prevalece.
Numa altura em que vamos a votos é fácil comparar, é fácil decidir entre o mau e o péssimo, chegando à conclusão que muitas vezes as comparações enaltecem o mau e extremarão o péssimo, nunca sendo o resultado final satisfatório.
Quando começamos uma análise e primeiramente comparamos, muitas vezes somos injustos e não avaliamos devidamente. Concordo que não é fácil não comparar, mas nem sempre é a opção correta para iniciar processos.
Um outro e grande problema é quando somos nós a compararmo-nos, alguns deixam de ser e de existir pois vivem na comparação com os outros. E como em tudo na vida há melhores e piores do que nós, mas é um grande problema quando nos achamos os maiores/melhores ou nos achamos os piores. Cada um deve viver sentindo aquilo que depende de si, dos seus valores, das suas capacidades/competências, deve viver tentando ser e fazer melhor com aquilo que tem, que nasceu e definir o seu caminho, olhando para a comparação só para saber onde está.
O que define o comparativo é também a vivência, as experiências tornam a comparação mais acertada e com menos probabilidade de erro.

A comparação pode servir de referência, mas não deve servir de caminho. 

segunda-feira, 16 de março de 2015

A escrita

Durante vinte e muitos anos a minha forma de expressão sempre foi muito condicionada, muito fechado e intervindo na grande maioria das vezes só quando chamado a atuar. Sempre tive as minhas opiniões e mesmo depois de ouvir e refletir sobre o que os outros diziam, sempre tirei as minhas ilações. Durante esses vinte e tal anos, aprendi com a minha mãe, muita coisa, sobretudo através de muito diálogo e de visualizar muitas ações por ela feitas e que me demonstravam que aquilo que dizia tinha reflexo direto naquilo que fazia. Durante todo o meu percurso académico houve uma coisa que destaquei no processo ensino-aprendizagem, é que quem mais dúvidas tinha e se expunha, melhor preparado ficava. Neste mesmo processo percebi também que quem mais partilhava melhor aluno era, percebi mais tarde que a grandeza da partilha é um estado de maturidade mais avançado e que a compreensão desse estado pode nunca acontecer, um dos motivos é o caracter competitivo e egocêntrico da sociedade em que nos encontramos, cada um por si, tentando sobreviver e tentando se destacar impondo as suas regras e os seus ideais.
Até à pouco tempo não sentia a necessidade de escrever para transmitir algumas coisas e neste momento sinto, sinto necessidade de deixar o meu ponto de vista e de partilhar, pensamentos, situações quotidianas, aprendizagens, estados de espírito. Muitas vezes impulsionado por feedback´s que recebo de muita coisa que transmito, de muitas opiniões sobre o que escrevo, de ajudas e novas aprendizagens que recebo, pois pontos de vista diferentes ou novos são mais aprendizagens. A vida tem-me permitido conhecer grandes atores desta sociedade, ter o prazer de ter muitos deles como amigos e de podermos trocar opiniões e aprendizagens, enchendo o portfólio da vida, com ideias diversas e fundamentadas. Comecei algumas coisas na vida como autodidata e isso também foi bom, pois permitiu testar ideias e permitiu procurar encontrar soluções para aquilo que não tinha resposta, Ao dia de hoje continuo a pensar igual e sei que quem está no campo e testa diariamente está melhor preparado para lidar e preparar os outros, pois as soluções muitas vezes não são as mesmas, não saem dos livros e só são resolúveis através do background que todos os dias é alimentado. Muitas vezes pensei parar para refletir e avaliar, nunca consegui parar, tento refletir e avaliar dentro do processo e isso tem sido para mim mais rico.
Destaco que tenho aprendido muito ao ouvir o mais leigo e ao ouvir o mais sabedor, muitas vezes as soluções vêm da simplicidade e da vontade de quem transmite, muitas vezes a teoria e os padrões não passam de perdas de tempo.
Muitas vezes correndo o risco de escrever mal, pois não sou da área e a escrita requer técnica e normas, prefiro escrever mal e transmitir aquilo que desejo, do que fechar a porta. Senti a partir de dado momento a obrigação de escrever, obrigação como fator de transmissão, porquê transmitir a 9 ou 10 se podemos transmitir a 1000. Transmitir muitas vezes aquilo que todos sabem, mas que eu humildemente considero fundamental e defendo, se dos 1000 nenhum estiver interessado, é porque não interessa o que escrevi, mas se 1 achar importante, talvez já seja positivo.
O sentido de missão que tenho sentido nestes meus anos de existência, dizem-me que temos de seguir aquilo que acreditamos e que gostamos, que temos de tentar fazer pelos outros aquilo que queremos para nós e se puder contribuir fico feliz. Por isso vou escrevendo, mas quando mudar de opinião também sou menino para parar e mudar.  

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Desafios

Sempre com mil coisas e sem tempo. Podia queixar-me, mas só me queixo a quem não chego com o tempo que devia chegar.
Um ano de muitas mudanças, um ano cheio de desafios e um grande sorriso por me terem proporcionado tantas coisas bonitas.
Passados 15 anos entrei no quadro enquanto QZP, foram 15 concursos anuais e sofrimento, vivendo sempre a curto prazo e angustiado, deixando escolas e alunos com dor de não poder continuar, mas encarando a próxima escola como se fosse a última, aquela que predoraria. É assim que vou continuar pois este vínculo é muito melhor, mas é igual a todos os outros da função publica e do privado, por isso já estou ciente que será assim até aos últimos dias da minha vida, enquanto eu amar o que faço, vou tentar continuar.
O projeto PEL, continua, com muita responsabilidade e dedicação, a mesma de sempre, agora com uma família desportiva maior e com muitos amigos a ajudar, permitindo a um grande número de crianças que possam desfrutar de um desporto ímpar, e que desfrutem da melhor forma.
Depois um projeto de vida, um projeto com uma componente humana brutal, um projeto de desenvolvimento do voleibol Angolano, permitir a tantas, mas tantas crianças, milhares, que possam iniciar precocemente o desenvolvimento do voleibol, que através dele possam usufruir de uma experiência única. O Voleyblue é muito mais que um projeto, estou certo que será um marco e uma marca que ficará para um povo que bem merece. Tentaremos chegar a todas as vertentes, mas queremos que as nossas crianças Voleyblue possam ser mais felizes, possam usufruir de algo que sem o projeto seria muito difícil alcancarem. Por isto tudo, é uma grande responsabilidade mas ficará para sempre na minha vida.
A minha família está feliz, muito amor, pois a família é o mais importante, pois apesar de ser afortunado neste momento profissional, só serei feliz se a minha família estiver feliz. As minhas filhas crescem a um ritmo alucinante, mas o carinho que nos transmitem deixam-nos mais descansados sobre aquilo que estamos a fazer. A minha mulher é uma guerreira, luta para chegar a tudo e todos e permite que a felicidade nos envolva.
Tudo dá muito trabalho, muitos são os problemas que envolvem cada desafio, cada projeto dá dores de cabeça inigualaveis, mas o sorriso das crianças, uma palavra dita por elas que nos toca no coração faz-me acordar todos os dias a pensar que estamos a tentar ajudar os outros a serem melhores pessoas, melhores alunos/atletas, é um sentimento muitoooo bommm. 
Só espero estar à altura de tamanhos desafios. 

sábado, 19 de abril de 2014

Ser treinador de voleibol em Portugal

Ser treinador de voleibol em Portugal é mais um dos reflexos da cultura voleibolistica do país, que vê nesta modalidade uma brincadeira amadora, onde muitos carolas e verdadeiramente apaixonados dignificam e dão alguma dignidade a este jogo.
O número de profissionais no voleibol português é tão reduzido que não permite um desenvolvimento sustentado do mesmo, são precisas pessoas para pensar, para operacionalizar a tempo inteiro, dedicando-se a esta modalidade e desenvolvendo uma estrutura profissional. Essa estrutura tem de ter dirigentes, técnicos e atletas profissionais, tem de ter um leque bem mais alargado de pessoas que vivam e trabalhem só para o voleibol.
Não tenho dúvidas que neste momento dos quatro desportos coletivos mais praticados em Portugal que o voleibol é o mais amador e rudimentar nos processos, no entanto o segundo mais praticado entre atletas federados e praticantes do desporto escolar. 
Exige-se um processo de formação de treinadores, exige-se a continuidade desta mesma formação, pede-se aos treinadores que paguem isto tudo e que ainda sejam formadores dos seus pares ( e não lhes paguem), que estes paguem um certificado temporário, pois certamente perderam as habilitações com o tempo, lol, que tenham horas de estágio, horas de formação obrigatórias, resumindo nas obrigações institucionais são tratados como profissionais, mas nos direitos em serem devidamente enquadrados e reconhecidos não. O treinador paga a sua formação, paga tudo o resto e depois o que recebe? Qual o enquadramento que faz com que um treinador "qualificado" seja remunerado e exerça efetivamente o seu papel de treinador dentro das condições que lhe são apresentadas nas formações. Que condições existem para a maioria dos treinadores nacionais? 
O papel do treinador numa sociedade é deveras importante para ser tratado com tamanha leviandade, o treinador de voleibol em Portugal, na maioria dos clubes, é uma pessoa que trata da parte burocrática, que trata de apoios, que trata de toda a logística do treino e do jogo, que trata do relacionamento institucional, que educa os atletas e os pais, que trata da vertente humana de cada atleta, que é psicólogo, que muitas vezes é pai e mãe, é amigo, é também condutor, é roupeiro, é estatístico, fisioterapeuta, preparador de treinos e jogos e depois de tudo isto lá tenta ensinar os fundamentos do voleibol. E quando é que faz isto tudo? Quando? No seu tempo livre, depois do seu trabalho, entrando no pavilhão, montando campos e material de apoio, ouvindo mil problemas, entre os problemas lá dá uns treinos, no final do treino o que há? Mais problemas para resolver e coisas para ouvir, depois lá vai jantar ou tomar a seia, pois vontade de comer já lá vai, fazendo ao mesmo tempo o balanço do treino e preparando o próximo treino e depois o restoooo. E a vida pessoal de cada um destes seres metódicos, desumanos ( pois humanamente não é possível), sem família (pois quem tenha, coitada da mesma). Estes super-homens e super-mulheres, o que recebem em troca? Muitas vezes nem para o gasóleo, muitas vezes são eles que põem do bolso para que as coisas andem, são estes os treinadores que lhes exigem que sejam treinadores certificados. Estes são os treinadores que ainda ouvem alguns pais, estes são os treinadores que ainda tentam explicar aos atletas que os princípios que ele transmite/ exige como sendo os básicos, são aqueles que devem ser cumpridos, são estes os treinadores que não têm férias, pois quando há paragens dão treinos e quando pára a época já estão a preparar a próxima. São estes que acabam um jogo e estão a pensar no próximo, são estes que são o exemplo para os atletas. São estes que são os amadores.
O que os move é a paixão ao voleibol, o ensinar o próximo, as crianças que adoram jogar, os graúdos que mantêm vivo esse bichinho, o resto são tangas.
Só mais uma coisa estes estão em constante avaliação, se ganham são muito bons se perdem são muito maus (mentalidade futebolística), mas como é possível saberem se são bons ou maus se no final de contas aquilo que menos fazem é serem treinadores.
Não digam nada a ninguém mas há poucos que são TREINADORES em Portugal, eu ainda sonho ser, como muitos sonham, mas não se iludam pois o que fazemos na maior parte das vezes é enquadrar um hobbie que temos, pois em Portugal não nos deixam ser treinadores.
Mas não se esqueçam que sem vocês a sociedade seria muito mais pobre.
Bem hajam aos treinadores e pseudo-treinadores de voleibol em Portugal.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Onde anda a humildade, o obrigado, onde anda a educação desportiva?

Cada dia que passa mais preocupado fico, o vazio de valores é tão significativo que começo a não acreditar.
A falta de humildade e de agradecimento é um podre que parece que se propaga como de uma epidemia falássemos.
No meio destas dificuldades todas, ainda há quem ajude e muitos felizmente, agora quem precisa e recebe às vezes não percebe o que acontece, critica o que recebe e mais não agradece, como se quem dá fosse obrigado a dar e a dar aquilo que quer receber.
No extremo, se calhar alguns nem têm o que comer, mas pedem bife da vazia e se só lhe dão iscas, criticam, esquecendo-se do fundamental, que alguém lhe deu de comer.
Este é o reflexo daquilo que falei à uns anos atrás que o consumismo que dominava a nossa sociedade, renegava o essencial, para enaltecer o supérfluo, renegava a fome para valorizar a gula.
Habituaram-se a ter, a ter sem qualquer esforço, nunca foram educados para valorizar o que tinham e agora que não têm não sabem não ter e não sabem agradecer a quem lhes permite ter alguma coisa.
No associativismo, à quem não possa pagar para poder jogar, mas joga, há quem ainda reclame daquilo que lhe dão gratuitamente e que nunca tenha uma palavra de agradecimento, sim o obrigado aquela palavra educada, é algo difícil atualmente, mesmo dado, tem de ser arregaçado.
Mas de quem é a culpa, é nossa enquanto sociedade, da educação, o não, tem de ser dito pelos pais, não podes fazer, não podes ter, não, não... Se tens agradece, agradece por muito pouco que seja é dado, é um gesto de grandeza, de nobreza. 
Vejo em muitos clubes que acompanho algo que me preocupa também, os pais, que passam pela mesma dificuldade, alguns, como podem dar aos seus filhos tudo de bom e do melhor, têm dificuldade em entender que ou têm todos ou não tem nenhum, pois quem dá ou dá a todos ou a nenhuns, a ninguém pode ser negado o mesmo do que aos outros quando funcionamos numa sociedade fechada como por exemplo num clube.
Mas às vezes penso, como podem valorizar as crianças o que têm se às vezes são os pais a alimentar estas situações, hoje os pais querem saber porque os filhos não jogam se pagam, querem saber porque trabalham com crianças menos desenvolvidas se a minha criança é melhor, querem saber porque aquecem com aqueles, querem que as crianças vençam a todo o custo, independentemente da forma como se chega à vitória. Existe obviamente o contrário, senão já não via nem uma luz ao fundo do túnel. Na faculdade, em pedagogia do desporto, a excelência da sabedoria do meu professor, dizia numa das suas aulas, muitas vezes os pais são mais problemáticos do que os filhos, pois os filhos muitas vezes são o reflexo da falta de formação desportiva dos pais, no desporto todos acham que percebem, todos falam, por isso há jornais desportivos diários. Foi uma frase que nunca mais me esqueci, sempre a achei muito forte mas atualmente cada vez faz mais sentido em alguns contextos. 
Muitos pais ajudam, muitos sabem o seu lugar, mas muitos não sabem estar, nem sabem educar desportivamente os seus educandos, alguns vêm nos seus filhos aquilo que gostariam que eles fossem, vêm na criança aquilo que nunca conseguiram ser e querem resultados para ontem. O problema é que exigem, mas são os primeiros a incutir irresponsabilidade no cumprimento do processo de treino, a não responsabilizar o seu educando pelo incumprimento das regras definidas e do compromisso, mas depois questionam porque não joga. Como pode valorizar a criança o desporto, como pode reconhecer no treinador a disciplina que este impõe? Se o pai lhe diz como é possível não jogares, sem aparecer a um treino, sem saber o que se passa?
Resumindo, mesmo explicando continua-se a não saber o que é o processo de treino, como neste momento não existe tempo de aprendizagem informal ( o recreio, os jogos de rua) confunde-se isto com treino, nada mais errado.
Por isso hoje entre a falta de gratidão, entre a falta de agradecimento, entre a falta de noção de educação e a aquisição de valores, tudo se desenrola mal e o reflexo é visível é nos jovens adultos.


Hugo Maria - Voleibol